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terça-feira, dezembro 15, 2009

Em tão breve viagem de metrô

Eu, sentado na poltrona de um metrô de São Paulo. 10h00. Manhã de hoje. Absorvo os rostos e jeitos dos passageiros. As rugas e as varizes da senhora me chamam a atenção. Como era seu rosto há 20 anos? Ela tem uma beleza perdida. Será que ainda lembra do tempo de jovem menina? O quanto das marcas do sofrimento lhe diminuiram a esperança?
Do outro lado, um rapaz mexendo repetidamente os dedos. Só então percebo o quanto os sons e os movimentos desta viagem são irritantemente repetitivos. A ânsia por algo novo me incomoda.
A moça que fala ao telefone parece sentir-se única em meio a tanta gente. Sua vida está contida no diálogo com uma pessoa invisível do outro lado da linha.
Pergunto-me em pensamento: este sou eu ou é o outro de mim? Este outro seria o verdadeiro, ainda que em tranformação pela graça? Ou seria ele o falso, que teima em impedir a renovação genuína?
Que conflito! Que complexidade! E em tão breve viagem de metrô...

sexta-feira, julho 24, 2009

Ao som dos mosquitos

O som dos mosquitos parece uma orquestra de baixos. Eu olho de dentro do mosquiteiro, e sorrio por saber que eles estão do outro lado. Estou em Igarapé-Açu (PA), na casa de meus pais, e lembro que já havia esquecido o tanto de mosquitos (aqui conhecidos como carapanã) que rodeiam nossas orelhas.
Estou no terceiro dia de estadia aqui. Me sinto como estes mosquitos: andando em círculos, sem direção certa. Tento lembrar que estou de férias, mas ainda tenho a sensação de dever sobre alguma coisa. Talvez seja isso mesmo: nunca tiramos férias completamente quando vivemos num mundo tão cheio de complexidades. Sempre temos uma missão, um objetivo, um olhar sobre os problemas.
Enquanto assisto TV, lembro que esta pode ser uma boa oportunidade para eu olhar de novo minha história, e, quem sabe, compreender melhor meus desafios de hoje. Família, fé, respeito, dificuldades sociais, pobreza... tudo isso tem a ver não somente com convicções teológicas e sociais, mas também com minha própria história pessoal. Não é possível lutar contra a pobreza se você não sentiu alguma vez a dor de ser pobre. (não quero dizer que você precisa necessariamente ter sido pobre, mas que você deve ter sentido os efeitos da pobreza).
Os mosquitos me incomodam, confesso. Mas tristeza mesmo vem quando percebo o quanto impotente me sinto diante da realidade. A começar pelas relações humanas e familiares. Preciso aprofundar minhas convicções a ponto de lutar por elas. E sei que somente o Espírito Santo pode fazer esta revolução em mim.

sábado, julho 11, 2009

Fui à Mangue Seco, mas não molhei os pés


Quase 7 da manhã. Quarta-feira, início do meu terceiro e último dia em Recife (PE), e eu só havia visto a praia de longe. Daí minha resolução: acordar cedo e apreciá-la.
Sentei-me em uma cadeira da estrutura de madeira montada sobre as águas, e tentei ficar em silêncio para ouvir os sons que tanto gosto. Não fosse a sujeira deixada pelos boêmios da noite anterior e a presença incômoda de uma cadela grávida, eu teria conseguido me concentrar mais.
Ao sair, vi uma canoa chegando. Tive a ideia de ir ao outro lado e visitar a famosa praia de Mangue Seco (aquela aonde a novela Tieta foi filmada). Lembrei que não tinha dinheiro. Cheguei próximo de Chico, o dono do barco, e perguntei o preço de ida e volta. "Dois reais para ir e dois para voltar". Revirei o bolso da minha mochila e encontrei, por sorte, 3 moedas de um real. Ele aceitou o novo preço e me levou até o outro lado.
Munido de minha máquina fotográfica e curiosidade, cheguei às margens da praia. Alguns pescadores, areia meio escura, e uma sensação de decadência. Caminhei vários metros para a direita, mas encontrei pouco encanto. Mato, sujeira, cachorros, alguns homens bebendo aguardente. As poucas casas existentes eram cercadas de grades e algumas com cãos de guarda. Nem pareciam casas de praia.
Segui em frente, procurando boas imagens para fotografar. Encontrei um pedaço de pano com vários rasgos, em fortes movimentos causados pelo vento. No fundo, um sol preguiçoso. Bati duas fotos da cena.
Caminhei um pouco mais, e encontrei uma fila de árvores em tamanho ordenadamente crescentes. Foi a foto que mais gostei.
Encontrei um jovem pescador que, apressado, contou-me a razão de ilha estar tão vazia de gente. "Ainda está cedo, e além disso os turistas gostam de vir no fim de semana". Com uma vara nos ombros, o pescador seguiu em frente, como que não considerando interessante continuar conversando com um turista que fazia perguntas óbvias.
Cheguei então no local onde estavam os diversos bares-restaurantes. E percebi que ali sim é que os turistas ficavam, mas naquela hora do dia havia apenas um casal de namorados e um homem em outra mesa. As dezenas de palmeiras enfileiradas davam o ar turístico ao ambiente. Não pude seguir em frente; precisava voltar ao hotel para o início do evento em que participava.
Ao sentar-se no barco e tomar o caminho de volta à praia, comecei a conversar com Chico, o remador. Ele foi apontando as casas que pertenciam à família do dono de uma empresa de cimento. Casas lindas e com tamanhos desproporcionais às propriedades dos nativos de Mangue Seco. Ao perguntar a ele se o dono das casas ajudava de alguma maneira a população local, ele sorriu e respondeu, com ironia: "ajuda nada. Ele vem nos fins de semana, anda na lancha e vai embora".
Voltei para o hotel com uma incômoda sensação de tristeza. A realidade de desigualdade do país se reproduz em cada espaço local. Uma vez, outra vez, sempre. Mais recentemente, na praia de Mangue Seco.
Curiosamente, fui à praia, mas não molhei os pés. As ondas me convidavam, mas sem razão aparente, não quis. Minhas sandálias continuaram secas, apesar de sujas de areia.
Cometemos o mesmo absurdo. Vamos à praia, tiramos fotos, mas não molhamos pés. Mangue Seco, em decadência, é um recorte de nosso Brasil, desproporcionadamente lindo e desigual.

sábado, dezembro 08, 2007

Surpresas em Lima

Hoje é minha última noite em Lima (Peru). Estou aqui desde o dia 05, participando de uma oficina sobre segurança das crianças em projetos sociais. Nestes dias conheci muitas coisas e pessoas interessantes. Conheci também um pouco mais de mim mesmo.

É muito bom viajar. Melhor ainda é perceber o exato momento em que você já nao é mais a mesma pessoa. Me dei conta que mudamos mais do que pensamos ou conseguimos captar. Cada evento, cada ato... nos toca, nos marca - consciente ou inconcientemente. Na maioria das vezes, inconcientemente.

Por isso, precisamos da poesia para vermos melhor o que nosso pragmatismo nos esconde. A surpresa da vida só é possível porque somos limitados. Por isso, nao consigo entender aonde a nossa geraçao quer chegar. Quando escolhe a auto-suficiência, ela está percorrendo o caminho errado. Será que ninguém percebe? Com o tempo, a humanidade se dará conta de que perdeu o elemento mais interessante da vida: a imprevisibilidade.

Crer em um Ser Infinito e maior do que nós, nos ajuda a entender com realismo nossa própria pequenez. Com isso, a vida se torna muito mais interessante e valiosa. E nós nos tornamos mais humildes em nossas vitórias e derrotas.

Voltando a falar de minha viagem, Lima tem uma característica que me chamou a atençao: aqui temos sempre a impressao de que vai chover, mas nunca chove. O céu é cinza, o vento é constante e a temperatura é relativamente baixa. No entanto, a chuva nao vem. Para os visitantes, pode parecer óbvio que vai cair água do céu, mas nao cai.

No entanto, ninguém perde a esperança de que um dia talvez a chuva venha.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Ouvindo a América Latina

Estou desde o dia 04, na Colômbia (cidade de Paipa). Participo de um encontro latino-americano sobre infância e igreja.

Tem sido muito interessante ouvir os irmãos e irmãs de outros países da América Latina. Eles têm muito o que nos ensinar, especialmente em como viver o evangelho diante dos problemas que nosso continente enfrenta hoje. Eles estão fazendo uma teologia muito mais concreta para o nosso dia-a-dia do que nós, brasileiros. Aliás, nós somos muito distantes deles (talvez, por um certo preconceito ou orgulho).

Muitas igrejas da América Latina enfrentam poderes opressores em seus países, violência cometidas por verdadeiros governos paralelos (o que chamados de "governo paralelo" no Brasil nem se compara!), pobreza extrema e abuso contra crianças e adolescentes em risco. E ao contrário de muitos pentecostais do Brasil (e tradicionais também), os daqui são muito mais ativos, articulados politicamente e conscientes da realidade.

Precisamos nos aproximar de nossos "hermanos", ouvir suas histórias, aprender com eles e renovar nossa espiritualidade olhando para a deles. Precisamos sair de nosso "berço esplêndido", que de esplêndido não tem nada.