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sábado, abril 10, 2010

Ode à amizade

O singelo poema que escrevi no post anterior poderia muito bem ter outro título: "Ode à amizade". Seu conteúdo reconhece que caminhar com amigos é muito melhor.

Tenho pensado nestes dias sobre o valor da amizade. Os melodramáticos a retiraram do contexto da missão (do meio do caminho), e com isso ela se tornou pobre e motivo apenas para reflexões vazias. Muito do que fazemos de significativo em nossas vidas só é possível porque temos amigos. Muito (ou quase tudo) perderia o sentido se não houvesse a amizade. A amizade é um assunto altamente espiritual!


Jesus reconhece seus discípulos como amigos (Jo 15.15). O que isso significa? O grande trabalho de Jesus foi assumir o sacrifício necessário para que o ser humano se reconciliasse com ele. Reconciliar é restaurar o relacionamento, é voltar a ser amigo. 


Com a morte e a ressurreição de Cristo em favor de nós, tudo mudou. A amizade se tornou o maior presente e a maior obra da Trindade. Se algo faz sentido nesta vida dura, é que somos transformados em amigos. Nossa identidade diante de Deus é formada na perspectiva da amizade. A própria obediência resulta no reconhecimento da amizade (Jo 15.14).


Ser amigo é sentar junto, rir junto, chorar junto, comer junto, trabalhar junto, sonhar junto, caminhar junto. Mas é também viver um estilo de vida que não dificulta a reconciliação. Neste círculo de cumplicidade é que o amor se fortalece (Jo 15.12).


"Faça amigos" é quase sinônimo de "ame um ao outro" (Jo 15.17). Seguindo esta ordem, nosso caminho será muito mais rico e interessante.

domingo, março 08, 2009

A bondade que move a vida


A bondade é o coração da vida. É ela que sustenta o mundo (não a maldade). Toda bondade humana deriva da bondade de Deus. Por isso, é legítima. Expressões de afeto são formas de traduzir a bondade de Deus ao nosso mundo.


Em termos teológicos, a bondade misericordiosa de Deus chama-se graça (charis em grego) – um conceito fundamental para entender a espiritualidade cristã. É pela graça divina (bondade misericordiosa de Deus) que somos salvos. É pela graça justa (bondade sacrificial de Cristo) que somos reconciliados com a Verdade. Daí somos despertados para uma nova humanidade que tem Jesus como modelo e o Espírito Santo como companheiro.


O que muda então? Começamos a viver o que Paulo, o apóstolo, chama de “viver de acordo com o Espírito”. Em outras palavras, há um jeito diferente de viver, baseado num transcendente, porém real relacionamento com Deus. Essa é a verdadeira espiritualidade: viver pelo Espírito.


Portanto, falar de bondade apenas como um esforço humano é reduzi-la a expressões isoladas de afeto (muitas vezes, no fundo egoístas). A bondade que move a vida procede de Deus e estende-se profundamente a todo aquele que vive segundo o Espírito Santo. Essa dimensão concreta de bondade chama-se graça.

O caminho da graça é o único que faz sentido em um mundo confuso e malvado como o nosso. Como disse certo teólogo, “ela é a cola de Deus para um mundo quebrado”.


Para ler: Efésios 2.8,9, 15, Rm 8.5,6; 12-15.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Liberdade e orfandade

ossa geração parece confusa. E isso se deve em parte por causa de sua incompreensão sobre liberdade. A palavra é bonita, se torna um alvo, uma linha de chegada para a maioria dos nossos contemporâneos.
Imagino um adolescente sonhando em ser independente dos pais: chegar a hora que quiser em casa, fazer o que desejar, se relacionar com quem quiser...
Imagino uma mulher pensando em como seria bom se tivesse permanecido solteira: poderia trabalhar mais, ganhar mais, ter mais relacionamentos amorosos, planejar melhor sua vida.
O homem já pensa seriamente em ter mais de um casamento. Se não der certo um, apropria-se do direito à liberdade e bem-estar, para pedir o divórcio e iniciar um novo ato conjugal.
Por trás desta maneira de pensar há uma idéia de que "fomos feitos para sermos livres, e disso ninguém pode nos privar".
Mas por muitas vezes esquecemos que a liberdade não tem muito sentido se não consideramos também nossa própria natureza humana. Ou seja, somos seres que necessitam de ajuda, que precisam de modelos, que anseiam por orientação na caminhada da vida. Liberdade sem referências que nos moldem e nos mostrem o caminho certo nos torna órfãos, e não pessoas livres.
É triste perceber que caminhamos rumo à orfandade. Não temos mais pessoas reais a quem nos espelhar; apenas os vultos plastificados pela TV ou pela maquiagem da publicidade. Não desejamos ouvir os conselhos de outros que nos conhecem, que sabem nossa história pessoal, que nos amam. Preferimos os conselhos fabricados de autores de livros de sucesso que vendem milhões de exemplares, mas que não sabem quem realmente somos.
No livro A Estrada, de Cormac McCarthy, um homem e seu filho caminham por uma longa estrada em direção à costa, tentando sobreviver em uma terra completamente devastada e destruída; sem comida, com quase nenhuma esperança, sem pessoas do bem com quem caminhar. A ficção traduz claramente este sentimento de orfandade que vivemos hoje.
Precisamos repensar o que entendemos por liberdade. Isso vai nos ajudar a fazer as escolhas certas, a valorizar a amizade e as pessoas que estão próximas.
Liberdade é um presente de Deus. Ele sabe que precisamos tomar conta da nossa vida, mas sabe também que precisamos uns dos outros. E precisamos essencialmente dele mesmo.

quarta-feira, maio 14, 2008

Uma caminhada pelo centro do poder

Dia 14 de maio de 2008. Estou pela primeira vez em Brasília, centro do poder político do país. Depois de um pedido de visto para os EUA fracassado, resolvi caminhar pela frente dos prédios enormes que abrigam os ministérios federais. Visitei primeiramente o Ministério do Desenvolvimento Social e Segurança Alimentar. Fui recebido por uma jornalista a quem pedi informações sobre o trabalho do dito ministério. Com boa vontade e simpatia, ela me deu vários folders e material sobre estatutos de idosos, crianças, etc. e sobre o Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Li rapidamente algumas coisas e fiquei animado com o que estava no papel. Resta saber se isso é real o suficiente na prática. De dentro do meu coração, me veio um desejo grande de que as Igrejas também se envolvessem com tudo isso.

Depois, passei em frente ao Ministério do Meio Ambiente e li duas faixas de apoio à Marina Silva, assinadas pela Associação dos Funcionários do MMA. Uma delas dizia: "Continue a Luta!". Me dirigi para a porta de entrada do prédio, e por acaso, encontrei Jane Villas Bôas, a assessora de Marina. Ela me reconheceu (eu havia conversado com ela em junho de 2007) e nos saudamos com alegria. Eu disse que soube da demissão da ministra e expressei meu apoio e também da equipe da Editora Ultimato. Ela agradeceu e disse que a demissão da Marina foi uma atitude de "sacrifício necessário para que as vitórias conquistadas não fossem perdidas". Logo após essa frase, ela disse (em outras palavras) que Marina não suportou a incoerência do Governo em apoiar governadores que iam contra a política de meio ambiente que estava sendo defendida e implantada pelo MMA. Com isso, Marina se viu se sustentação do próprio Governo. Lhe restou o "sacrifício necessário" de pedir demissão para continuar lutando no Senado. Nos despedimos com um carinho de irmãos em Cristo, e com a certeza de que a luta continua.

Continuei caminhando. Passei pela bela Catedral Metropolitana de Brasília e pelas 4 estátuas dos 4 autores do Evangelho (Mateus, Lucas, Marcos e João). Igreja e Estado lado a lado. Coincidência? Talvez não. De qualquer forma, entrei no templo e apreciei a maravilha arquitetônica de Niemeyer. Ao lado da catedral, vi 4 sinos grandes doados pela Espanha. Alguns minutos atrás, eu passei ao lado de um ambulante que vendia exatamente sinos (!). Brinquei com ele: "Esses sinos vão ajudar a acordar alguns políticos daqui, hein?". Ele riu economicamente, mas não disse nada (acho que não entendeu a piada).

Mais a frente, ajudei a empurrar um carro sem gasolina. Trabalho em vão. O carro continuou sem gasolina.

Passei em frente à Biblioteca Nacional de Brasília, mas apesar da vontade de entrar, não o fiz, pois precisava chegar na rodoviária.

Sob o sol escaldante da capital federal, vi trabalhadores rurais protestando em frente ao prédio do Ministério do Planejamento. Eles reclamavam que o Governo não cumpriu a promessa de reajuste salarial. Foi o segundo protesto popular que presenciei nos dois dias que estou em Brasília.

Ao entrar no ônibus que iria me levar até a um shopping, vi uma senhora idosa ajudando uma mais idosa ainda a descer do ônibus. Já dentro do lotação, um homem entrou para vender doces. Comprei um pacote, e quando desci do ônibus, também o encontrei lá embaixo. Como havia citado alguns versículos bíblicos para nós, resolvi lhe dar uma revista Ultimato. Ele agradeceu. Depois de um tempo, atravessei a pista e o encontrei numa mesa de um restaurante bebendo uma cerveja e lendo a Ultimato. Feliz da vida!

Agora são 14h15. Às 19 horas volto para Viçosa.