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sábado, março 13, 2010

A maldição da justiça individual



Aquele que está preso à sua própria justiça, é como alguém abandonado em uma ilha deserta: sem pão, sem ajuda, sem salvação. Os caminhos do egoísmo passam necessariamente pelas ilhas da justiça individual. Eis mais uma maldição do nosso tempo.

O homem contemporâneo vê a vida, as pessoas e os problemas a partir de um único princípio: “quem me deve que me pague!” Não há espaço para descontos ou perdão; muito menos para erros, imprevistos ou desatenção dos outros. Não há alegrias compartilhadas, apenas compensações. Não há compaixão, apenas favores. Não há confissões, apenas argumentos.

A maldição da justiça individual consiste em reduzir a uma única pessoa o que deveria ser para todos. O vislumbre do pôr-do-sol privatizado em uma tela pintada. É como comer todo o bolo no meio de outros famintos só porque foi você quem o preparou. “Eu fiz o bolo, logo é justo que o coma por inteiro e não o reparta com ninguém”.

No entanto, não se faz justiça sem misericórdia, porque ninguém resiste ao crivo da justiça individual, assim como ninguém sobrevive sozinho por muito tempo em uma ilha deserta. Quem decide viver assim se torna prisioneiro de si mesmo e da ilusão de uma organização da vida que, na verdade, é egoísta, insuficiente e incompleta. Uma solidão profunda atinge a vítima desta maldição, porque ela não vê amigos, apenas estranhos que ameaçam seus direitos.

A promessa do reino de Deus é colocar em ordem o fluxo da misericórdia. Quem se reconhece dentro deste reino, tem misericórdia dos outros e recebe misericórdia de Deus (Mt 5.7). A justiça da compaixão é o seu cetro. Fazer parte deste reino é ser libertado da escravidão da justiça individual e gozar da plenitude da justiça compartilhada, guiada por Deus e enriquecida pelos relacionamentos verdadeiros.

Misericórdia é “levar ajuda ao miserável” (Léxico Grego de Strong). Para que isso aconteça, precisamos admitir que somos ambos, o que leva a ajuda e o que recebe a misericórdia. E isso só será possível quando Deus nos curar da maldição da justiça individual.

domingo, março 07, 2010

A maldição da carência

Somos capazes de escalar montanhas, percorrer matas e navegar mares à procura do que ainda não temos, de um anseio não realizado. E enquanto buscamos, somos transformados pelo desejo que nos move. De certa forma, ele nos define. À semelhança de Golum, personagem da série “O Senhor dos Anéis”, corremos o risco de perder a humanidade, caso o desejo egoísta pelo “precioso” nos domine.

Nossa geração vive a
maldição da carência. Nela, os desejos aprisionam e definem nossos caminhos e nosso jeito de viver. Eles são fonte de lucro financeiro e movem a máquina pós-moderna da existência. Desejo agora é grife, é ideologia, é fundamento para escolhermos a religião, a ética, o amor. Até nossa maneira de pensar é controlada pelos desejos. Somos capazes de chegar a conclusões absurdas para justificar nossa vontade.

A maldição reside num fato curioso: quanto mais buscamos a satisfação, mais insatisfeitos nos tornamos. É como aqueles jogos de azar que nos fazem gastar mais dinheiro sempre que ganhamos um pouco. Ou como um viciado em drogas, que quanto mais consome, mais sente falta. Não há saída para quem segue este caminho. Um dia a insatisfação o dominará de tal forma que ele perderá o sentido de viver. Quando isso acontecer, a maldição da carência chegará ao mais alto nível de destruição.

Se há uma fartura, esta só é concedida a quem tem a fome certa: fome e sede de justiça (Mt 5.6). Isto é, o desejo de tornar-se justo e de fazer parte de uma justiça que vai além dos nossos desejos egoístas. É abrindo-se para a justiça de Deus que nos encontramos em seu reino. Ao contrário da máquina pós-moderna, a engrenagem do reino de Deus nos humaniza, nos faz mais gente. Escolhemos o que é justo, e não obrigatoriamente o que desejamos. No reino andamos livremente, pois o desejo que nos dominava é apenas mais um companheiro de viagem, com o qual até dialogamos, mas sem sermos subjugados por ele.

Contra a
maldição da carência só mesmo o consolo e a satisfação de um Deus que nos conhece muito bem. A ele entregamos nossos desejos. Em troca, ele nos dá sua justiça.

sexta-feira, julho 24, 2009

Ao som dos mosquitos

O som dos mosquitos parece uma orquestra de baixos. Eu olho de dentro do mosquiteiro, e sorrio por saber que eles estão do outro lado. Estou em Igarapé-Açu (PA), na casa de meus pais, e lembro que já havia esquecido o tanto de mosquitos (aqui conhecidos como carapanã) que rodeiam nossas orelhas.
Estou no terceiro dia de estadia aqui. Me sinto como estes mosquitos: andando em círculos, sem direção certa. Tento lembrar que estou de férias, mas ainda tenho a sensação de dever sobre alguma coisa. Talvez seja isso mesmo: nunca tiramos férias completamente quando vivemos num mundo tão cheio de complexidades. Sempre temos uma missão, um objetivo, um olhar sobre os problemas.
Enquanto assisto TV, lembro que esta pode ser uma boa oportunidade para eu olhar de novo minha história, e, quem sabe, compreender melhor meus desafios de hoje. Família, fé, respeito, dificuldades sociais, pobreza... tudo isso tem a ver não somente com convicções teológicas e sociais, mas também com minha própria história pessoal. Não é possível lutar contra a pobreza se você não sentiu alguma vez a dor de ser pobre. (não quero dizer que você precisa necessariamente ter sido pobre, mas que você deve ter sentido os efeitos da pobreza).
Os mosquitos me incomodam, confesso. Mas tristeza mesmo vem quando percebo o quanto impotente me sinto diante da realidade. A começar pelas relações humanas e familiares. Preciso aprofundar minhas convicções a ponto de lutar por elas. E sei que somente o Espírito Santo pode fazer esta revolução em mim.