sexta-feira, abril 10, 2009

A mensagem


A Páscoa não é apenas um fato, mas uma mensagem. Não é apenas a época do ano em que os israelitas repetem a singela refeição dos seus antepassados, com carne assada, pão sem fermento e ervas amargas. Não é apenas o triste dia em que um homem inocente foi morto injustamente.

Não, é muito mais que isso. É uma mensagem – profunda, única, poderosa. É a mensagem que explica a origem das coisas, que sustenta a existência, que revela uma nova justiça e que sinaliza o caminho para todos nós.

Páscoa é a mensagem de um homem que é a mensagem, que é Deus. Em Jesus Cristo, o início, o meio e o fim se fundem. E formam a maior mensagem de todas.

Nele, todo o esforço de homens santos faz sentido, porque a plenitude da verdade chega. Em seus braços ensangüentados, ela chega. E consigo traz a Boa Nova da salvação. Nele, a esperança humana se materializa na perda da vida e sua seguida ressurreição. Nele, os instantes de morte e de vida formam uma única história.

A humanidade que ora ouve, ora ensurdece-se, agora relembra o fato. Mas esquece da mensagem. A mesma humanidade que, por vezes, clama ao desconhecido pelo que já foi revelado.

Em Cristo, todos os sacrifícios de amor se encontram e se beijam. Em Cristo a última palavra da mensagem não é morte; é ressurreição.


“Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.” Hebreus 1.1-2

domingo, março 29, 2009

A escolha de Deus

Nossas fragilidades não são obstáculos para a obra de Deus. Pelo contrário, são meios para ele expressar seu caráter. Neste caso, água e óleo não apenas se misturam sim como também se conjugam para criar uma receita deliciosa. Por isso, Moisés declara em sua oração: "consolida, para nós, a obra de nossas mãos". (Sl 90.17).

A principal maneira de Deus agir neste mundo é por meio do ser humano. Por isso, a igreja é tão importante e faz tanto sentido. É pos isso também que Paulo nos lembra a linha de ligação da ação salvadora de Deus que tem a humanidade como peça principal: por um homem entrou o pecado; por outro homem (Jesus Cristo), veio a salvação (Rm 5.12-17). Aliás, a maior prova desta escolha é a vinda de Deus como homem para salvar o homem.

Esse é o jeito de Deus agir. Muitos podem não concordar com ele, mas esse é o jeito de Deus. Tanto que ele resolveu se revelar em um livro escrito por homens e por meio de histórias suas com os seres humanos. A natureza, os animais, os anjos... todos eles são também meios de Deus agir, mas nenhum se iguala ao ser humano.

E é por isso também que o pecado é algo tão sério; porque afeta diretamente esta escolha de Deus. O pecado torna o ser humano confuso diante da proposta de Deus para ele. O pecado distancia a humanidade do único lugar que dá sentido a sua caminhada: o colo de Deus. O pecado afeta diretamente o homem e prejudica significativamente sua relação com Deus e com sua obra.

A vida humana é um campo aberto para o trabalho de Deus. E isso só é fascinante para nós porque o que Deus faz é coerente com a maior de todas as suas escolhas: o ser humano.

segunda-feira, março 16, 2009

Avisos sobre a crise econômica


Não sou economista, mas quero dar uns pitacos. Não obstante as razões técnicas da crise financeira mundial, a nossa sociedade não pode ignorar os avisos para este momento da história:
1. Não esquecer que as vítimas da crise não são apenas os senhores da economia, mas também quem depende inteiramente das decisões econômicas. Segundo o Banco Mundial, até 53 milhões de pessoas passaram a enfrentar a extrema pobreza como consequência direta do cenário econômico vigente. Os grupos vulneráveis são, em especial, mulheres, crianças, migrantes, refugiados, indígenas e deficientes físicos.(1). Crise só é crise porque afeta o ser humano. As soluções, portanto, precisam ajudar o ser humano mais afetado.
2. Ter humildade para auto-avaliar sua ética. Esta crise nos mostra que a ética não tem sido um critério considerado para tomada de decisões econômicas. Muitas vezes, vale mais a ganância do que o bem-estar social. Para os cristãos isso se chama pecado.
3. Ter coragem de tomar as decisões mais corretas. A coragem é precedida pela certeza do que é certo e do que é errado. Por isso, decide-se agir, apesar das improbabilidades aparentes. O mundo tem uma ótima oportunidade para tomar, corajosamente, decisões mais justas e sábias que ajudem a todos e salvem o planeta.
4. Reconhecer a insuficiência humana. Esta crise mostrou que os sistemas econômicos não resolvem tudo. Na opinião do pesquisador Immanuel Wallerstein, "como ninguém sabe realmente quais serão as flutuações desses indicadores, que mudam praticamente diariamente, ninguém pode fazer um planejamento sensato de nada" (2). Ou seja, ainda precisamos aprender muito. Para nós, cristãos, a certeza de que há um Deus soberano, deve nos dar humildade para reconhecer nossa insuficiência. Que os senhores do dinheiro e das nações também o façam.



(1) Os direitos humanos em tempos de crise. Artigo de Maria Nazareth Farani Azevêdo, publicado em 15/03/2009, página A3, no jornal Folha de São Paulo.
(2) Aprendendo com o Brasil. Artigo de Immanuel Wallerstein, publicado em 15/03/2009, página A10, no jornal Folha de São Paulo.

domingo, março 08, 2009

A bondade que move a vida


A bondade é o coração da vida. É ela que sustenta o mundo (não a maldade). Toda bondade humana deriva da bondade de Deus. Por isso, é legítima. Expressões de afeto são formas de traduzir a bondade de Deus ao nosso mundo.


Em termos teológicos, a bondade misericordiosa de Deus chama-se graça (charis em grego) – um conceito fundamental para entender a espiritualidade cristã. É pela graça divina (bondade misericordiosa de Deus) que somos salvos. É pela graça justa (bondade sacrificial de Cristo) que somos reconciliados com a Verdade. Daí somos despertados para uma nova humanidade que tem Jesus como modelo e o Espírito Santo como companheiro.


O que muda então? Começamos a viver o que Paulo, o apóstolo, chama de “viver de acordo com o Espírito”. Em outras palavras, há um jeito diferente de viver, baseado num transcendente, porém real relacionamento com Deus. Essa é a verdadeira espiritualidade: viver pelo Espírito.


Portanto, falar de bondade apenas como um esforço humano é reduzi-la a expressões isoladas de afeto (muitas vezes, no fundo egoístas). A bondade que move a vida procede de Deus e estende-se profundamente a todo aquele que vive segundo o Espírito Santo. Essa dimensão concreta de bondade chama-se graça.

O caminho da graça é o único que faz sentido em um mundo confuso e malvado como o nosso. Como disse certo teólogo, “ela é a cola de Deus para um mundo quebrado”.


Para ler: Efésios 2.8,9, 15, Rm 8.5,6; 12-15.

sábado, março 07, 2009

De cara nova


Para os aventureiros - assíduos do meu blog, por isso aventureiros -, o Fatos e Correlatos está de cara nova. Alterei o subtítulo (e umas coisinhas mais). Com a ajuda da minha esposa, Kelen, também mudei algumas cores. Queria que o layout expressasse um pouco melhor a diversidade do blog. Espero que vocês gostem. Aguardo comentários!

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Liberdade e orfandade

ossa geração parece confusa. E isso se deve em parte por causa de sua incompreensão sobre liberdade. A palavra é bonita, se torna um alvo, uma linha de chegada para a maioria dos nossos contemporâneos.
Imagino um adolescente sonhando em ser independente dos pais: chegar a hora que quiser em casa, fazer o que desejar, se relacionar com quem quiser...
Imagino uma mulher pensando em como seria bom se tivesse permanecido solteira: poderia trabalhar mais, ganhar mais, ter mais relacionamentos amorosos, planejar melhor sua vida.
O homem já pensa seriamente em ter mais de um casamento. Se não der certo um, apropria-se do direito à liberdade e bem-estar, para pedir o divórcio e iniciar um novo ato conjugal.
Por trás desta maneira de pensar há uma idéia de que "fomos feitos para sermos livres, e disso ninguém pode nos privar".
Mas por muitas vezes esquecemos que a liberdade não tem muito sentido se não consideramos também nossa própria natureza humana. Ou seja, somos seres que necessitam de ajuda, que precisam de modelos, que anseiam por orientação na caminhada da vida. Liberdade sem referências que nos moldem e nos mostrem o caminho certo nos torna órfãos, e não pessoas livres.
É triste perceber que caminhamos rumo à orfandade. Não temos mais pessoas reais a quem nos espelhar; apenas os vultos plastificados pela TV ou pela maquiagem da publicidade. Não desejamos ouvir os conselhos de outros que nos conhecem, que sabem nossa história pessoal, que nos amam. Preferimos os conselhos fabricados de autores de livros de sucesso que vendem milhões de exemplares, mas que não sabem quem realmente somos.
No livro A Estrada, de Cormac McCarthy, um homem e seu filho caminham por uma longa estrada em direção à costa, tentando sobreviver em uma terra completamente devastada e destruída; sem comida, com quase nenhuma esperança, sem pessoas do bem com quem caminhar. A ficção traduz claramente este sentimento de orfandade que vivemos hoje.
Precisamos repensar o que entendemos por liberdade. Isso vai nos ajudar a fazer as escolhas certas, a valorizar a amizade e as pessoas que estão próximas.
Liberdade é um presente de Deus. Ele sabe que precisamos tomar conta da nossa vida, mas sabe também que precisamos uns dos outros. E precisamos essencialmente dele mesmo.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Morte e vida, passado, presente e futuro

No primeiro dia do ano, recebo a notícia da morte da Valquíria - uma moça de 21 anos, sorridente, serva e irmã em Cristo. No mesmo dia vejo no jornal televisivo que outra Valquíria - uma jovem mãe - deu à luz à primeira criança de Belo Horizonte em 2009.
Morte e vida, passado, presente e futuro: realidade. Cada tempo é um mistério. Cada história é um mundo de morte e vida, passado, presente e futuro. Seriam inconciliáveis por natureza, a não ser pela mão do Bom Pastor que reuniu céu e terra, passado, presente e futuro em um só tempo, em uma só vida, em uma só morte.
O que esperar do ano que chega? Nada. Ele é que espera de nós: mais paixão pela vida, mais amor pelo Bom Pastor, mais compaixão pelos outros.
Que Deus console a família da nossa querida Valquíria.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Um desenho do futuro

Uma paráfrase de Jeremias 31

Deus anuncia um futuro melhor para sua gente, cansada de errar. Um futuro onde é possível viver com dignidade, onde todos agradecem alegremente a ele pelo perdão concedido, usando a criatividade (música, dança...). E isso inclui moças, jovens e velhos (13)!

O futuro que Deus promete ao seu povo é inclusivo – ele vai reunir os que estão espalhados pelos confins da terra, entre eles, cegos, aleijados e mulheres grávidas (8). Ele será o pastor desta comunidade (10).

Sião será uma cidade farta, onde haverá lugares para descanso, um lugar de pessoas satisfeitas com a bondade do Senhor (14). As mães não mais chorarão pelos seus filhos distantes, pois eles voltarão à casa materna (17). Deus também terá seu filho Efraim de volta - o filho que errou, mas se arrependeu (18-20).

No futuro que o Senhor desenhou para seu povo, “uma mulher abraça um guerreiro” (22), o fraco será fortalecido (25) e ninguém vai sofrer pelo pecado do outro, mas apenas pelo seu próprio erro (30).

O futuro que Deus quer para seu povo – e ele chegará – vai existir exatamente porque a vida recomeçará. Porque o Senhor fará uma nova aliança, um novo acordo, um novo pacto com o seu povo (31). Será uma aliança muito depois daquela feita nos dias do Egito. Será um novo tempo e um novo começo. Para Deus, futuro é recomeço.

O conhecimento sobre Deus, sobre a vida e sobre as pessoas será igual a todos, sem necessidade de sacerdotes, mestres, etc. (34)

Estas são palavras do Senhor, que tem autoridade para determinar os movimentos da natureza (35) e para cumprir seus próprios sonhos a toda gente que ele ama.

Que assim seja!

segunda-feira, setembro 08, 2008

Paciência paciente


É preciso ter paciência, mas quem a terá que não espera sua chegada, às vezes, anunciada, outras repentina?
O que se espera, por mais esperado assim, não garante afim do que o coração aguarda.
Espera, então, no que está posto, eternamente dito, pelas linhas da história e do instante, eterno, terno nos lábios do Senhor.
Que esperança é esforço de não estar além do que é, do que ainda não conquistado está, pela certeza de que o rumo escolhido - não trilhado totalmente todavia - é mais do que uma opção:
É promessa feita por ambos, eu e Deus, de que o então rumo escolhido acabou tornando-se a própria vida.

sábado, julho 19, 2008

Poesia na areia


Vento em nós,
Do mar ou do Espírito,
Ambos nos tornam
Vivos...
Na rebeldia de seus movimentos.

sábado, junho 28, 2008

Espejos. Una historia casi universal

Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos nos lembram.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, eles se vão?

Este livro foi escrito para que não partam.
Nestas páginas unem-se o passado e o presente.
Renascem os mortos, os anônimos têm nome:
os homens que ergueram os palácios e os templos de seus amos;
as mulheres, ignoradas por aqueles que ignoram o que temem;
o sul e o oriente do mundo, desprezados por aqueles que desprezam o que ignoram;
os muitos mundos que o mundo contém e esconde;
os pensadores e os que sentem;
os curiosos, condenados por perguntar, e os rebeldes eos perdedores e os lindos loucos que foram e são o sal da terra.

Eduardo Galeano, escritor uruguaio. Este texto é uma apresentação de seu novo livro Espejos. Una historia casi universal.

segunda-feira, junho 16, 2008

Clara e suas lágrimas

Clara veio conversar comigo. Triste, ela contou seu passado. Não que tenha sido infeliz, mas que foi afetada vivamente pelo sofrimento. Não que tenha sido vítima de tragédias particulares ou familiares, mas sim que seu estilo de vida a colocava ao lado de pessoas que sofriam diante da injusta vida.
Clara disse que a pobreza não é problema. O problema é a infelicidade das pessoas diante dela. É possível ser feliz, mesmo sendo pobre. Se engana quem pensa que o pobre precisa da nossa ajuda para ser feliz. Ele (e, em especial, as crianças) tem a capacidade de reinventar a vida no caminho da escassez. E é feliz assim.
Clara tinha em seu coração a frustração por sua mãe não ter conseguido suportar a convivência com a pobreza. Sua mãe, de origem pobre, não admite ter continuado assim. A pobreza é cruel com nossos sonhos. Ela, ao mesmo tempo que os renega, nos torna indignos dele. Com esta face, a pobreza faz mal, muito mal.
Clara não tem medo da pobreza. Se continuar pobre, não será frustrada ou amargurada. Ela tem medo da decadência da humanidade. De saber que muitas pessoas pobres que irá conhecer vão continuar vivendo uma vida medíocre, sem saber ou experimentar uma vida plena (com sentido e propósito). Esta certeza levou Clara às lágrimas enquanto almoçava e conversava conosco.
A conversa com Clara me levou a pensar muito sobre a pobreza, os pobres e o rumo de nossas vidas. Nosso mundo é injusto. Vivemos para nós mesmos, acreditando que isso é o correto, é o justo, é o que todo estudante deve pensar quando planeja o futuro. Viver para os outros é coisa de religiosos ou de gente boba, pensamos.
O choro de Clara não era fruto de uma tristeza egoísta, mimada (prato cheio para os psicólogos). Era o choro de alguém que sempre viveu para os outros, e por isso, que sofre por eles e com eles. Ela está pagando o preço desta escolha. Parece trágico, mas não é.
Clara terminou a conversa dizendo que é feliz, muito feliz. "Apesar de tudo, sei o sentido da minha vida. Mesmo em momentos de sofrimento e privação que passei, sempre soube a razão da minha escolha".
Clara me ensinou muito com suas lágrimas.

quarta-feira, maio 14, 2008

Uma caminhada pelo centro do poder

Dia 14 de maio de 2008. Estou pela primeira vez em Brasília, centro do poder político do país. Depois de um pedido de visto para os EUA fracassado, resolvi caminhar pela frente dos prédios enormes que abrigam os ministérios federais. Visitei primeiramente o Ministério do Desenvolvimento Social e Segurança Alimentar. Fui recebido por uma jornalista a quem pedi informações sobre o trabalho do dito ministério. Com boa vontade e simpatia, ela me deu vários folders e material sobre estatutos de idosos, crianças, etc. e sobre o Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Li rapidamente algumas coisas e fiquei animado com o que estava no papel. Resta saber se isso é real o suficiente na prática. De dentro do meu coração, me veio um desejo grande de que as Igrejas também se envolvessem com tudo isso.

Depois, passei em frente ao Ministério do Meio Ambiente e li duas faixas de apoio à Marina Silva, assinadas pela Associação dos Funcionários do MMA. Uma delas dizia: "Continue a Luta!". Me dirigi para a porta de entrada do prédio, e por acaso, encontrei Jane Villas Bôas, a assessora de Marina. Ela me reconheceu (eu havia conversado com ela em junho de 2007) e nos saudamos com alegria. Eu disse que soube da demissão da ministra e expressei meu apoio e também da equipe da Editora Ultimato. Ela agradeceu e disse que a demissão da Marina foi uma atitude de "sacrifício necessário para que as vitórias conquistadas não fossem perdidas". Logo após essa frase, ela disse (em outras palavras) que Marina não suportou a incoerência do Governo em apoiar governadores que iam contra a política de meio ambiente que estava sendo defendida e implantada pelo MMA. Com isso, Marina se viu se sustentação do próprio Governo. Lhe restou o "sacrifício necessário" de pedir demissão para continuar lutando no Senado. Nos despedimos com um carinho de irmãos em Cristo, e com a certeza de que a luta continua.

Continuei caminhando. Passei pela bela Catedral Metropolitana de Brasília e pelas 4 estátuas dos 4 autores do Evangelho (Mateus, Lucas, Marcos e João). Igreja e Estado lado a lado. Coincidência? Talvez não. De qualquer forma, entrei no templo e apreciei a maravilha arquitetônica de Niemeyer. Ao lado da catedral, vi 4 sinos grandes doados pela Espanha. Alguns minutos atrás, eu passei ao lado de um ambulante que vendia exatamente sinos (!). Brinquei com ele: "Esses sinos vão ajudar a acordar alguns políticos daqui, hein?". Ele riu economicamente, mas não disse nada (acho que não entendeu a piada).

Mais a frente, ajudei a empurrar um carro sem gasolina. Trabalho em vão. O carro continuou sem gasolina.

Passei em frente à Biblioteca Nacional de Brasília, mas apesar da vontade de entrar, não o fiz, pois precisava chegar na rodoviária.

Sob o sol escaldante da capital federal, vi trabalhadores rurais protestando em frente ao prédio do Ministério do Planejamento. Eles reclamavam que o Governo não cumpriu a promessa de reajuste salarial. Foi o segundo protesto popular que presenciei nos dois dias que estou em Brasília.

Ao entrar no ônibus que iria me levar até a um shopping, vi uma senhora idosa ajudando uma mais idosa ainda a descer do ônibus. Já dentro do lotação, um homem entrou para vender doces. Comprei um pacote, e quando desci do ônibus, também o encontrei lá embaixo. Como havia citado alguns versículos bíblicos para nós, resolvi lhe dar uma revista Ultimato. Ele agradeceu. Depois de um tempo, atravessei a pista e o encontrei numa mesa de um restaurante bebendo uma cerveja e lendo a Ultimato. Feliz da vida!

Agora são 14h15. Às 19 horas volto para Viçosa.

terça-feira, maio 06, 2008

Diálogo imaginário nº 1

Seus pensamentos modificavam-se hora após hora. A viagem incomodava. Dava para perceber. Nos olhos, uma sensação límpida de que não sabia a resposta da minha pergunta. Ele era apenas um jovem estudante. Por que teria que responder? Eu, mais velho, queria testá-lo, mas não imaginava o que viria. Quando veio, quase que me arrependi de ter subestimado sua inteligência.

- Você acredita em Deus?, perguntei.

Não me acanhei em questionar. Isso porque para mim a pergunta era uma maneira de revelar minha superioridade.

Ele, quase gaguejando, soprou uma palavra como se fosse "coração". Dois segundos depois, meu cérebro conseguiu me comunicar que, na verdade, o jovem garoto havia respondido:

- Em você, não.

quarta-feira, abril 23, 2008

Só um pedaço de papel colorido?


Extraído do livro Mere Christianity, de C. S. Lewis

Lembro-me de certa vez quando dei uma palestra para a Força Aérea e que um velho e experiente oficial levantou-se e disse: “Não sei qual a utilidade disso tudo. No entanto, veja bem, eu também sou um homem religioso. Sei que há um Deus. Eu o senti quando estava sozinho, no deserto, à noite: um grande mistério. E esta é precisamente a razão por que eu não acredito nos seus dogmas e nas suas fórmulas reducionistas e bem comportadas sobre Deus. Para qualquer um que já o tenha encontrado, tudo isso parece tão mesquinho, pedante e irreal!”

De certa forma eu até concordei com aquele homem. Penso que ele deve ter tido alguma experiência real com Deus no deserto. E quando ele voltou dessa experiência para os credos cristãos, acredito que ele voltou de algo real para algo menos real. Assim, também, se uma pessoa olha da praia para o Oceano Atlântico e, depois olha o Atlântico no mapa, ele também estará voltando de algo real para alguma coisa menos real: das ondas do mar para um pedaço de papel colorido. Mas é aí que está o ponto. O mapa é reconhecidamente um pedaço de papel colorido, mas há duas coisas que você deve lembrar. Primeiro, ele é baseado no que milhares de pessoas descobriram navegando o Atlântico de verdade. Dessa forma, um indivíduo tem atrás de si milhares de experiências tão reais quanto a que você poderia ter tido na praia; com a diferença de que, enquanto a sua seria um vislumbre único, o mapa dá conta de todas as variadas experiências juntas. Segundo, se você quer chegar a algum lugar, o mapa é absolutamente necessário. Para quem está interessado em apenas fazer algumas caminhadas na praia, a visão de tudo é muito mais agradável do que olhar para um mapa. Acontece que o mapa terá mais utilidade do que as caminhadas pela praia se você desejar chegar a outro continente.

Agora, a teologia é como um mapa – nada mais é do que aprender e pensar sobre as doutrinas cristãs. Ficar nisso, é menos real e menos emocionante do que o que aconteceu com o meu amigo no deserto. As doutrinas não são Deus; elas não passam de uma espécie de mapa. Acontece que esse mapa é baseado na experiência de centenas de pessoas que realmente estiveram em contato com Deus; experiências comparadas com quaisquer emoções ou sentimentos piedosos que você e eu poderíamos experimentar, considerados elementares e até confusos. Em segundo lugar, se você quiser chegar mais longe, terá que usar o mapa. Veja bem, o que aconteceu com aquele homem no deserto pode ter sido verdadeiro, e certamente foi empolgante, mas isso não resulta em nada. Não há nada que se possa fazer a respeito. Na verdade, eis aí arazão por que uma religião vaga, algo como sentir Deus nanatureza e assim por diante, é tão atraente. É só emoção, sem qualquer trabalho; é como observar as ondas do mar a partir da praia. Mas você jamais chegará a outro continente estudando o Oceano Atlântico dessa maneira, e jamais obterá vida eterna só de sentir a presença de Deus nas flores ou na música. Nem chegará a lugar algum apenas olhando os mapas, sem ir para o mar. Tampouco estará seguro se entrar no mar sem um mapa.

segunda-feira, abril 21, 2008

Jornalismo e sua vã maneira de viver

Sou jornalista por formação, e, naturalmente, tenho amigos jornalistas. Bem da verdade, já faz tempo que não exerço a profissão em uma redação diária convencional. Não vivo mais aquela tensão de todos os dias em busca de notícias. Confesso: às vezes, sinto um pouco de saudades, apesar de ter vivido algumas insatisfações no meio.

Por isso, me ponho a refletir um pouco sobre nossa atuação diante dos fatos recentes. Nos últimos dias, o Brasil está ouvindo uma espécie de "música de uma nota só": o caso da morte trágica da menina Isabella. É realmente inaceitável o que aconteceu. No entanto, olho com preocupação o papel da mídia.

Apesar do ceticismo característico, vez ou outra os jornalistas (ou os jornais?) se convencem de que podem espurgar o mal. Para isso, basta mostrá-lo repetidamente, e cada vez mais. Como nossa formação existencial (talvez não tão convicta assim) se relaciona com a existência do mal (ou da maldade)? Como nós, jornalistas, podemos analisar com honestidade que nosso humanismo ingênuo não é suficiente para explicar a realidade? Somos amigos ou inimigos do mal? O que ele significa para nós?

Não quero pensar o pior: que os jornais se aproveitam do caso Isabella para aumentar a audiência de seus programas e meios. É fato que isso realmente aconteceu (o aumento da audiência). No entanto, sei que muitos jornalistas o fazem movidos por uma - talvez inesperada - indignação. Outros, é verdade, não sentem nada, a não ser o dever de divulgar mais uma notícia. Os donos de jornais, esses sim, pensam mais na audiência.

É incoerente também constatar que mesmo dando tanta importância a fatos como este, a mídia os ignora posteriormente como se ignorasse um filme repetido. Tanta relevância deveria gerar mais compromisso dos meios de comunicação, não acham? Ou a história só existe enquanto a telas dos jornais a exibem? Um drama não pode ser contido no tamanho de uma lauda. Ele vai além da nossa habilidade de formular frases e de nossa capacidade de concisão.

Não quero acreditar também que a mídia brinca com a realidade. Ela não pode ser um garoto arteiro que maltrata o gatinho de casa só para ouvir os gritos do animal e para sentir-se mais poderoso. Violência e morte de crianças é uma realidade cruel em nosso país. Acontecem todos os dias, principalmente nos lugares mais pobres. Agora me digam: por que suas histórias também não são contadas? Quem determina a pauta? Quais os critérios? Quais objetivos? Quem se importa com o acontece com pessoas pobres nos rincões do nosso país?

Vale aqui pararmos para pensar como anda nossa ética como jornalistas. O que nos resta neste famigerado mundo de notícias, correria e descrições rápidas? Quais nossos valores reais? O que nos move? Perguntas que podem nos ajudar a escrever a próxima notícia.


domingo, março 30, 2008

De tudo que vivo...



Senhor,
De tudo que sinto, vem sempre uma sensação de incompletude. Por tempos, achei que era incoerência espiritual. Hoje, sei que é tua glória infindável visitando, que não alcanço por mais obediente que eu seja.


De tudo que vejo, há sempre um olhar misterioso que não cabe nas cores – mesmo todas elas reunidas e intensificadas pelo sol do meio-dia। Esse olhar que não defino é teu... por mim... pelo outro que não vejo... pelo povo que te segue. Olhar de compaixão.


De tudo que sei, não sei como se move o tempo. Não sei como vivem e viveram todos em todas as eras. Não sei por que ainda brota diariamente a esperança do melhor, da bondade, da existência além do que existe. Não sei. E esta ignorância me é guia em direção à verdade.


De tudo que faço, há sempre um horizonte maior, mais forte que toda a minha força। Há sempre movimento. Além do meu controle. Há sempre Tu fazendo algo mais sublime. Porque da fonte vem minha força, não de mim mesmo.


De tudo que vivo, há sempre um caminho além a percorrer. Das surpresas de hoje, há sempre um novo nascimento. Há sempre uma criança sorrindo para mim. Dela, vem a prova de que a realidade é maior que minha vida. De que a salvação está no recomeço, e de que o recomeço está na salvação.


Amém.

segunda-feira, março 24, 2008

Frase do dia

“...guarde o que lhe foi confiado”
1 Timóteo 6.20

terça-feira, março 18, 2008

A Primeira Páscoa (uma paráfrase)




Na sala empoeirada, euforia. Arrumando a bagagem, a mãe não sabia como fazê-la. Sua geração não estava acostumada com tal tarefa. O pai, apressado, preparava o fogareiro, juntando brasas e soprando o vento para o mesmo local. O menino brincava com o cordeirinho, lindo, em seus últimos momentos de vida. Já haviam se tornado amigos naqueles quatro longos dias. No coração da criança, a dúvida: por que ele tem que morrer? O que ele fez de mal?

A dita euforia combinava com o cheiro da liberdade. Toda a família sentia o mesmo odor. Parecia um sonho. Sairemos do Egito e iremos para a nossa terra.

O amargo das ervas era como uma despedida irônica dos séculos de sofrimento que nenhuma língua gostaria de provar. E que mesmo assim não deveriam ser esquecidos.

A noite seria longa, e infelizmente fúnebre. Mesmo com o barulho de arrumação nas casas vizinhas, ainda assim havia um silêncio estranho no ar. De alguma forma, tudo aquilo estava interligado: a bagagem, o cordeiro, o fogo, as ervas amargadas, o pão sem fermento, o medo da morte, o sonho de liberdade, a fé no Senhor.

Tudo começava a fazer sentido na medida em que fazíamos o que Ele ordenara por meio de Moisés e de Arão. Tínhamos uma firmeza nunca antes vista. Até o faraó se surpreendeu conosco. De escravos nos transformamos em revolucionários. De submissos éramos vistos como subversivos.

Mais importante do que isso, no entanto, era o momento solene do holocausto. Nossa identidade estava ali, naquele altar. Um cordeiro morto, sofrendo em nosso lugar, servindo de alimento para nossa humanidade, para nossa necessidade de sobreviver. Não tínhamos idéia, mas nossa história começava a ser contada realmente, concretamente. Era apenas o começo de uma caminhada que duraria para sempre e transformaria o mundo.

[Relato da primeira páscoa. Baseado em Êxodo 12.1-11]

domingo, janeiro 27, 2008

Início de algo mais


Semeador que sai a semear
Espera flores no final
Na semente, olhos a brilhar,
Que todo sonho é real

A terra é seu mundo,
Cheio de grãos, tons, sinais
Com amor bem fundo,
Planta o início de algo mais

sábado, janeiro 05, 2008

Canto

Que canto é esse que

de tão forte, norte?


Canto no canto

de meu coração, morada.


Notas de uma canção livre,

Ventania que passa,

Fazendo rir o rosto do menino.


Canto acalanto,

Por entre os dedos, desejos

De uma vida simples,

Onde o canto ainda é ouvido.


Deus é o canto

de tudo que há.

Santo, canto.



terça-feira, dezembro 18, 2007

Deus visita o mundo bagunçado


Uma garota solteira prestes a ser mãe. Uma cidadezinha lotada por conta do recenseamento: muito barulho, sem lugares vagos para hospedagem. Um homem, meio envergonhado, guiando sua quase-família. Esse era o contexto do nascimento de Jesus.

Belém era a cidade. A garota era Maria. O homem era José, noivo de Maria. E na barriga dela, um menino que viria mudar a história do mundo. É Inegavelmente intrigante que Deus, em sua soberania, escolhesse esse momento e esses personagens para a vinda de seu filho.

Há algo de subversivo aqui, algo inadequado para os padrões sociais e para nossa própria consciência. De certa maneira, Deus está nos dizendo: “veja, esta é a vida real – um mundo bagunçado, mas com o qual me importo”.

Nossa bagunça é o solo para a graça de Deus. Natal é lembrar que o Filho do Homem um dia nos visitou, e, que mesmo longe, nunca deixou de estar próximo.

********

O menino que numa manjedoura nasceu é o sinal da única esperança para a humanidade. Jesus veio nos mostrar que o amor de Deus é definitivamente completo, porque une compaixão e justiça em nosso favor.

sábado, dezembro 08, 2007

Surpresas em Lima

Hoje é minha última noite em Lima (Peru). Estou aqui desde o dia 05, participando de uma oficina sobre segurança das crianças em projetos sociais. Nestes dias conheci muitas coisas e pessoas interessantes. Conheci também um pouco mais de mim mesmo.

É muito bom viajar. Melhor ainda é perceber o exato momento em que você já nao é mais a mesma pessoa. Me dei conta que mudamos mais do que pensamos ou conseguimos captar. Cada evento, cada ato... nos toca, nos marca - consciente ou inconcientemente. Na maioria das vezes, inconcientemente.

Por isso, precisamos da poesia para vermos melhor o que nosso pragmatismo nos esconde. A surpresa da vida só é possível porque somos limitados. Por isso, nao consigo entender aonde a nossa geraçao quer chegar. Quando escolhe a auto-suficiência, ela está percorrendo o caminho errado. Será que ninguém percebe? Com o tempo, a humanidade se dará conta de que perdeu o elemento mais interessante da vida: a imprevisibilidade.

Crer em um Ser Infinito e maior do que nós, nos ajuda a entender com realismo nossa própria pequenez. Com isso, a vida se torna muito mais interessante e valiosa. E nós nos tornamos mais humildes em nossas vitórias e derrotas.

Voltando a falar de minha viagem, Lima tem uma característica que me chamou a atençao: aqui temos sempre a impressao de que vai chover, mas nunca chove. O céu é cinza, o vento é constante e a temperatura é relativamente baixa. No entanto, a chuva nao vem. Para os visitantes, pode parecer óbvio que vai cair água do céu, mas nao cai.

No entanto, ninguém perde a esperança de que um dia talvez a chuva venha.

sábado, novembro 24, 2007

Distantes


Estreiteza de mim. Largueza dele.
O que penso cabe em uma caixa de fósforos;
O que ele pensa é além do horizonte, da vida.

Feiúra minha. Beleza dele.
O que mostro é conveniente, parcial.
O que ele mostra é luz total, êxtase do Belo.

Hipocrisia minha. Verdade dele.
O que falo é som vazio fruto de limitações.
O que ele fala é vento forte, caminho à transparência.

Tudo o que sou é pequeno diante dele.
Tudo o que faço é mínimo diante do que ele faz.

Abismo tal! Intrasponível será?
De minha parte sim, pois não sou mais do que existe.
Da parte dele não, pois em si reside o poder para pequeno ser.

De alguma forma, somos distantes para que eu reconheça saudades dele.

Eu preciso dele. Desde o começo.
É inexplicável, mas é verdade.

domingo, novembro 18, 2007

Vida e Tempo


No silêncio da tarde de domingo, penso na vida. Penso na maneira como vejo os outros. Penso no tempo que não é contado pelos ponteiros de um relógio.

O tempo, na verdade, é desconhecido. Pensamos que o conhecemos porque criamos uma fórmula matemática para medi-lo. Mas o tempo é um hábil fugitivo. Num momento gozamos de sua companhia. De repente, ele já não está aqui.

Há uma lógica sobre o tempo sobre a qual poucos pensam. O verdadeiro tempo está no ritmo da vida e não nos ponteiros. Quando devo falar e quando devo ficar em silêncio? Quando devo chorar e quando devo me alegrar? Quando devo estender a mão? Quando devo parar e olhar para trás? Quando devo seguir a decisão de caminhar e caminhar? O olhar da mãe tem seu tempo próprio, que não dá para explicar. O sorriso do amigo também.

A vida é companheira do tempo. Eles andam juntos, mudando constantemente os passos e rindo de nós por isso. Nós, seres humanos, somos geralmente enganados por estes dois porque achamos que os conhecemos. Meu medo é que a gente perceba tarde demais que o tempo e a vida já se foram, e nunca mais voltarão.

A morte de Carlos*

"Foi porque Deus quis?" A pergunta ressoou nas mentes de dezenas de pessoas ao redor do caixão de Carlos. Ele só tinha 23. Sua mãe estava desconsolada.
Eu e James entramos na sala-de-estar, com passos desconfortáveis. Me sentia um intruso querendo consolar. Não conhecíamos a maioria das pessoas. Nossos cumprimentos eram sempre tímidos. Quem conhecíamos já estavam chorando e, portanto, nosso interesse se voltou mais para consolá-los do que cumprimentá-los. Um aperto de mão, um abraço, um raro beijo. Palavras de constatação: "a vida é como uma neblina, já dizia Tiago". Oração: "Senhor, consola a família!". Conselhos: "ele já se foi; agora devemos cuidar dos que ficaram".
Carlos era um rapaz forte. Vivia com Patrícia* e a filhinha do casal, Juliana*. Os três formavam uma família muito jovem. Somando, não tinham a idade de uma pessoa de 50 anos. O cortejo fúnebre passou ao lado da casa onde Juliana, ignorante ao terrível infortúnio, brincava distraídamente. Mal sabia que seu pai se fora para sempre.
Mesmo discretamente, ouvimos informações de que Carlos estava tomando anabolizantes, o que teria causado o infarto fulminante. "Foi porque Deus quis?" era a pergunta.
Eu acredito na bondade de Deus. Também sei que a maldade ainda não morreu. Seu cortejo fúnebre, porém, está por vir.

* Nomes fictícios.

quarta-feira, novembro 14, 2007

A beleza em si

"Os livros ou a música nos quais imaginamos que a beleza estivesse acabarão nos traindo se confiarmos neles. A beleza não estava neles; ela apenas nos alcançou através deles, e o que nos acometeu por meio deles foi o passado - são belas as imagens do nosso real desejo; mas, quando as confundimos com a coisa em si, elas se tornam ídolos mudos, quebrando o coração de seus adoradores. Pois elas não são a coisa em si; não passam da fragrância de uma flor que não encontramos, do eco de um tom que não ouvimos, de notícias de um país que jamais visitamos. Você acha que estou tentando fazer alguma mágica? Quem sabe esteja; mas lembre-se dos seus contos de fada. A mágica é usada tanto para quebrar o encantamento quanto para induzi-lo."

C.S. Lewis (The Weith of Glory - Peso de Glória)

quarta-feira, outubro 24, 2007

Seja paciente...

"Seja paciente, pois cada pessoa que você encontra está enfrentando uma grande batalha"
(Filo de Alexandria apud Furnal, 2007).

segunda-feira, outubro 22, 2007

Incredulidade e credulidade

Caminhei ontem por ruas empoeiradas e casas ainda em construção. Conversei com pessoas sobre a vida, sobre a Bíblia e sobre Deus. Mentes que passam ao largo dos assuntos pautados pela Academia, como pós-modernidade, relativismo, etc. Os temas que elas denunciam são: hipocrisia, manipulação religiosa, vícios etc.

No fundo de cada conversa, uma incredulidade está misturada com credulidade (se é que isso é possível!). É o que posso pensar agora.

A incredulidade torna-os distantes da Bíblia em seu estudo sério, torna a experiência espiritual uma piada em suas manifestações religiosas. Mas, ao mesmo tempo, uma credulidade que permite o diálogo franco, aberto, alegre. Permite a oração sincera de quem está sofrendo. Permite a curiosidade pelo que diz a Bíblia, mesmo sendo tão difícil entender sua linguagem.

Talvez, neste caso, a falta de fé e a fé se juntam porque na verdade, eles creem em Deus, mas descreem na Igreja.

Como entender isso? Que respostas devo dar? Qual deve ser o meu discurso?

Questões que fogem dos limites da academia e estão lá... na mente e no coração do povo.

domingo, outubro 14, 2007

Olhos de esperança

Nos olhos sofridos, o toque da esperança.

Domingo, dia do Senhor Deus. Dia da comunhão. Hoje, 14 de outubro, primeiro dia da semana, faltando uma hora para findá-lo. Na memória, a lembrança daqueles olhos que pediam esperança.

Congregação Presbiteriana de Teixeiras - uma comunidade com duas vezes mais crianças que adultos. Crianças vivas que ainda sentem a vontade de sorrir, de pular, de amar. Ainda há chance.

Crianças que não sabem orar, mas querem aprender. Crianças que nos ensinam a falar com Deus, sem máscaras do cinismo. Que ao reconhecerem a própria realidade, sentem tristeza por ser o que são.

Elas têm vontade de participar da Ceia do Senhor. Na verdade, elas deveríam ser as primeiras, segundo Jesus, a gozar da Sua companhia. Eu... um adulto que sente saudades de si mesmo criança, gozo da alegria de tê-las comigo. De rir junto com elas dos nossos próprios erros.
Os pecados das crianças não podem justificar nossa insensibilidade e rigidez para com elas. Devem ser razões para percebermos o quanto nossa sociedade adulta errou.

Olho para as crianças com as quais convivo e vejo olhos sofridos, mas esperançosos. Talvez nem elas mesmas saibam de onde vem tal bálsamo.

Que nossos olhos sejam como os delas.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Embriaguez

Traga-me a garrafa! Lhe darei o líquido.
O que queres é mais do que podes ter. Basta a ti esperar...
Espera pelo que ainda se faz,
[pelo que se constrói com as mãos e o coração quente.

Traga-me o gole profundo do fel. Beberei; sem prazer, mas beberei.
O que queres é ter o invisível. Basta a ti fechar os olhos...
Olha tua própria face! Tens olhos de amêndoas.

Traga-me o que de melhor há. Juro permanecer em pé, imóvel.
Este é o ambiente que desejo: pessoas indo e vindo, som ao fundo, luz fraca.
Enquanto isso, minha viagem segue rumo ao infinito.
Esperando a próxima embriaguez da poesia,
[mas sempre com os pés no chão.

(Lissânder D. do Amaral)

quarta-feira, outubro 03, 2007

Lei e Graça

"A lei humilha, a graça exalta. A lei opera o temor e a ira; a graça opera a esperança e a misericórdia. A lei diz: "Faça isto", mas nunca se faz; a graça diz: "Creia em Jesus Cristo", e já está tudo feito. (Martinho Lutero)

segunda-feira, setembro 17, 2007

O Valor do Encontro

Dizem que a vida é feita de encontros, chegadas e despedidas. Sabe o que acho mais importante na magia do encontro? O olhar: poder perceber outros olhares, outras maneiras de ver o mesmo jardim e, assim, ser possível compartilhar esta descoberta no momento do encontro.

Não estou falando do enganoso conceito de “relativismo”. Falo da complementariedade, da benção que temos em unir olhares e, de repente, descobrir algo que não sabíamos sobre Deus, sobre sua Criação. Mesmo que, com a Internet, a tecnologia tenha revolucionado a maneira de nos relacionarmos, nada substituirá a força do encontro, de olho no olho, do sentir a presença do outro, do abraço gostoso, do sorriso espontâneo. Sabe por quê? Porque é no relacionamento que descobrimos nossa identidade diante de Cristo. Não em regras para seguir, mas nos encontros que vivenciamos.

Olho para trás e vejo tantos “pontos de encontro” que Deus nos deu para unir nossos olhares. Cada um de nós descobre que somos mais do que nossos próprios olhos. Esses "pontos de encontro" são oportunidades de percebermos o quanto nossa visão mudou e o quanto isto foi importante para nosso chamado, nossa vocação, nossa vida.

Nossos olhos já não são os mesmos. Alguns foram envelhecendo durante todos estes anos. Outros ficaram mais cristalinos por causa das lágrimas que caíram. Alguns, mesmo não enxergando mais tão bem por fora, vêem melhor por dentro, porque aprenderam a enxergar o coração. Em meio a tudo isto, percebemos o mais importante: os olhos do Senhor nunca nos deixaram e a Sua fidelidade sempre esteve presente. Vamos celebrar este milagre!

Não subestimemos o poder e a benção do ENCONTRO. Ele nos renova, nos anima e poderosamente nos transforma. Afinal, quando Deus resolveu se fazer homem e se encontrar conosco, o mundo nunca mais foi o mesmo.

(texto originalmente escrito para o 1º Encontro dos Ex-alunos do CEM, em 2003)

segunda-feira, setembro 10, 2007

Poetas

"Poetas são pessoas que, olhando para as coisas comuns que todo o mundo vê, vêem coisas que ninguém vê. Por isso a poesia é remédio para a cegueira."
Rubem Alves

saudade

saudade: lembrança do que foi, sem nunca ter ido.
saudade do caminho de rio, grande.
saudade do bravio mar, que de tanto ar.
saudade da madrugada, negra, seda.
saudade do que sonho, queda-se em mim.
(l.d.a.)

domingo, setembro 09, 2007

Deus

Deus, tua palavra, caminhando,
Pelas rodas inesperadas, vívidas.

Deus, teu toque, seguindo-me,
Pelas ruas empoeiradas, inóspitas.

Deus, teu rosto, refletindo,
Pelos espelhos quebrados, sujos.

Deus, teus olhos, roçando,
Pelos clarões abertos, verdes.

Deus, teu silêncio, perfurando,
Pelas esquinas nuas, prostituídas.

Deus, teu ser, transformando,
Pelas vias do coração, escuras e eternas.

Lissânder D. do Amaral

sexta-feira, setembro 07, 2007

Reino sem rei

Que será de um reino sem seu rei? Será miragem ou apenas uma metáfora?
O rei torna o reino real (com acidentes geográficos, gente caminhando, erros e acertos). Ignorar a presença pessoal do rei é banalizar o reino e toda a sua riqueza.
O Cristianismo oferece um reino que foi anunciado pelo seu próprio rei. O reino é a promessa do rei. O rei é a garantia de que o reino será instaurado completamente.
É certo que sempre desejamos pintar o rei do nosso jeito, especialmente quando temos poder político e religioso para isso. É certo, todavia, que o reino não passa de uma bela metáfora (especialmente, para nossos interesses sociais e políticos) se o rei não tiver poder para governá-lo.
Nós, seres humanos, não podemos ignorar a presença de ambos. Gostamos das bençãos do reino ("alegria, justiça e paz"), mas também precisamos considerar a presença real, pessoal e remidora do rei em nossas vidas marcadas pela rebeldia.
"Reino" e "Rei" devem ser escritos com letras bem maiúsculas.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Silêncio

“Somente quando entramos no silêncio, numa dimensão íntima, solitária, é que somos levados ao nosso próprio coração e ao coração de Deus. É só quando sei estar sozinho e quieto diante da face silenciosa e amorosa de Deus que minha narrativa é transformada, minha linguagem deixa de ser explicativa, argumentativa, para se tornar a linguagem da intimidade”.
Osmar Ludovico, no livro Meditatio.

Casamento

Casamento é uma nova maneira de viver. Ajuda a gente a ser menos egoísta. Ajuda a gente a reorganizar nossa vida.
Eu estou mais estável. Posso fazer mais planos para o futuro, porque tenho alguém para sonhar comigo. Posso buscar mais a Deus, porque tenho alguém para orar comigo.
Amanhã fará um mês que eu me casei com a Kelen. Que o Senhor continue sendo nosso companheiro de caminhada!

quinta-feira, agosto 23, 2007

Cadê?

"Onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos com a informação? Os ciclos do céu em vinte séculos nos levaram para mais longe de Deus e mais próximos do pó" (T.S. Eliot).

quinta-feira, junho 21, 2007

A Casa

Em meus sonhos, vi uma casa,
Pintada de azul e rosa;
Parecia ter sorriso, parecia ter asa,
Simples por fora, por dentro formosa.

Quanto mais me aproximava,
Mais brilhante era ela.
Era amor que inalava
Pela fresta da grande janela.

Porém a casa estava inacabada;
Ainda faltava gente, chão e telhado.
Era beleza sem ser apreciada,
Era vazio pra tudo que é lado.

Como feito isso é?
Casa tão bela abandonada?
Parece procissão sem fé
Andando pela estrada.

Entre a beleza e a solidão descobri
Que a casa incompleta existia
Porque o chão era meu amor por ti
E o telhado era teu amor que cobria.

Entendi, então, que Amor é construção,
Que a casa éramos você e eu.
Que quando estás ausente, não há chão.
E o telhado que me cobre é o coração teu.

Oh! Que casa bela!
Quantas de ti existem,
Inalando amor pela janela,
Neste mundo triste?

Obrigado, Deus Pai,
Pelo amor que nos chega,
Pela construção da paz
Que a humanidade renega.

Fica conosco na casa
Que construímos contigo!
Em vão vigia o guarda,
Se tu não és nosso amigo.


Poema escrito em 12 de junho de 2007 para minha amada Kelen, que faz morada em meu coração.

sexta-feira, maio 18, 2007

O mundo é um livro

O mundo é um livro, e quem fica sentado em casa lê somente uma página.
Santo Agostinho

sábado, maio 05, 2007

Cena do cotidiano 3

- Saio para comprar pão em Belo Horizonte. A padaria fica a três quarteirões. No caminho de ida, passa por mim um homem discursando para si próprio, somente para si. Na volta, olho para o outro lado da rua e mais um homem passa falando sozinho, efusivamente. No final da minha caminhada, passo ao lado de uma rodinha formada por taxistas e o assunto do momento é futebol. Olho para os outdoors espalhados e vejo convites e promessas irreais. Volto para a casa da minha sogra, pensativo, com perguntas de matutos: o que há de errado com esta cidade?

domingo, abril 29, 2007

Cenas do cotidiano II

- Belo Horizonte. Pego um táxi. Sérgio, o taxista, fala rápido e é apressado em nos convencer de que ele é bondoso, muito bondoso. Não nos dá chance para contrariá-lo em suas formulações "filosóficas" sobre o gênero feminino, sobre o amor, sobre família e sobre Deus. No final da corrida, ele mostra a foto da avó que hoje tem 103 anos e diz: ela é uma santa! Como gostaria de ser metade do que ela é!

- Domingo. Chego à igreja. No fundo do salão, algumas cadeiras muito bonitas (mais parecem tronos). São reservadas aos líderes. Eles chegam vestidos soberanamente com terno e gravata. Feições concentradas. O pastor fala. As pessoas ouvem.

Depois tem mais...

sábado, abril 28, 2007

Cenas do cotidiano

Sai de Viçosa neste fim de semana. Vim para a casa da família da Kelen em BH. Fazia tempo que não viajava a passeio. Com o olhar voltado ao cotidiano, algumas imagens ficaram em minha memória:
- Eu tomando banho. Em meio ao vapor do chuveiro, percebo a frase colada na porta do banheiro: Deus é fiel.
- Estou em Sabará, cidade histórica de Minas Gerais. Visito o Museu do Ouro e encontro marcas da exploração humana: louças inglesas, móveis portugueses, instrumentos de pesagem de ouro e outras pedras preciosas, imagens de negros no trabalho escravo. Tudo muito bonito, mas um pouco cruel.
Depois vou listar mais cenas do cotidiano...

sábado, abril 14, 2007

Para pensar

"Nosso maior perigo é sermos bem-sucedidos em coisas que não importam".

sábado, fevereiro 24, 2007

Oração do Caminheiro

Ó Senhor Deus!
Na estrada longa, as pedras machucam meus pés.
À espera pelo sol, a aurora cintila a angústia de meu coração.
Vem, aplaina a terra na qual piso, torna firme o meu caminho.

Na jornada da vida, meu corpo dói e meus lábios silenciam.
À espera pela chuva, o vento sopra palavras em meus ouvidos.
Vem, acalma a tempestade dentro de mim, torna firme o meu caminho.

Na confusão das minhas incertezas, minha mente sofre tentações.
À espera pela luz, as estrelas brilham tua graça em meus olhos.
Vem, ilumina a noite que me assola, torna firme o meu caminho.

Na decepção da derrota, minhas mãos e punhos enfraquecem.
À espera pelo horizonte, as montanhas revelam tua santidade infinda.
Vem, restaura minha esperança, torna firme o meu caminho.

Ó Senhor Deus!
Sara meus pés, alivia meu corpo,
Protege minha mente e fortalece minhas mãos.

Pelo teu amor leal e para tua glória,
Torna-me firme em teu Caminho,
Pois não há outro digno de ser percorrido.
Em nome de Jesus, amém.

Lissânder Dias (24.02.2007)

domingo, dezembro 24, 2006

O Natal e suas mensagens

“Qualquer que em meu nome receber uma destas crianças, a mim me recebe; e qualquer que me recebe a mim, recebe não a mim, mas àquele que me enviou.” Mc 9.37

Segundo Lucas, Jesus Cristo nasceu em uma manjedoura porque não havia lugar para ele nas estalagens. O Deus que acolhe não foi acolhido. O mesmo se repete hoje, nos lares de nossa sociedade individualista.

A mensagem principal do Deus-menino está sendo engolida nos corações humanos, a contra-gotas, pela mensagem mesquinha do deus-mercado. Saiba, há grandes diferenças entre ambas.

A mensagem do Deus-menino diz que a verdade é uma pessoa, que a verdade é libertadora e acolhedora, e que, ao confrontar-se com ela, o ser humano compreende que ele vale mais pelo que é do que pelo que consome.

A mensagem do deus-mercado prega que tudo é aceitável, desde que gere lucro financeiro. Ela diz que o ser humano vale mais pelo que consome do que pelo que realmente é. A "verdade" (lê-se "satisfação") está escondida em alguma bela roupa ou em um novo modelo automobilístico.

Entre uma mensagem e outra, há um abismo imenso. Não dá pra reconciliar a duas. Uma se opõe à outra. Enquanto a mensagem do Deus-menino nos propõe vida eterna e abundante, alegria baseada no amor, a mensagem do deus-mercado ensina que o importante é viver o aqui e agora e que os fins justificam os meios.

Ao contrário do que muitos pensam, não devemos ignorar a importância do dia 25 de dezembro. Ele é uma bela oportunidade (talvez a maior) para colocarmos essas duas propostas de vida em confronto direto.

Qual a nossa expectativa para este Natal? Firmar nossa identidade para o próximo ano na quantidade de coisas que compramos? Ou fortalecer quem somos na mensagem do Deus que acolhe?

Qual realmente é a nossa proposta de vida? Que diferença faz acreditarmos em um Deus que se fez carne e a habitou entre nós? Como isso transforma nossa liberdade de escolha?

Que o verdadeiro Espírito (com letra maiúscula) do Natal molde o nosso espírito e renove a nossa mente para o ano que chega.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Nossa realidade

Um quarto da riqueza do país ficou concentrada em apenas dez municípios em 2004, diz IBGE

A geração de riquezas do país ainda é fortemente concentrada em poucos municípios, segundo revelam os dados do Produto Interno Bruto (PIB) dos 5.560 municípios brasileiros de 2004 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Do total do PIB brasileiro de 2004, 25% ficou concentrado em apenas dez municípios. Em 1999, esta fatia correspondia ao PIB de sete municípios.

O instituto também apurou a continuidade da perda de peso de capitais no PIB do país, cedendo lugar aos municípios menores em termos populacionais.

De 2003 para 2004, o município de Macaé (RJ) entrou no ranking, ocupando a oitava posição. Sua entrada foi impulsionada pela indústria de petróleo local, que além de ter registrado alta de preço do produto no período, gerou mais riquezas com a valorização dos equipamentos ligados ao segmento.

Em compensação, Porto Alegre deixou a lista das dez maiores economias municipais e passou a ocupar o 13º lugar.

O ranking, em ordem decrescente, é composto por São Paulo, Rio, Brasília, Manaus, Belo Horizonte, Campos dos Goytacazes (RJ), Curitiba, Macaé (RJ), Guarulhos (SP) e Duque de Caxias (RJ). São Paulo respondeu por 9,09% do PIB do país, enquanto o Rio detinha 4,19%.

Já os cinco municípios com menor PIB em 2004 foram São Félix do Tocantins (TO), Santo Antônio dos Milagres (PI), São Miguel da Baixa Grande (PI), Ipueiras (TO) e Oliveira de Fátima (TO). Juntos, eles representavam somente 0,001% do PIB brasileiro.

A pesquisa, no entanto, mostra que 52,8% do PIB do país em 2004 estava fora do entorno dos centros urbanos, percentual maior ao apurado no ano anterior, de 49,4%. No Sudeste, o dinamismo econômico fora dos centros está relacionado à extração de petróleo e à agroindústria

Na região Sul, a economia fora dos centros urbanos foi puxada pelas indústrias automotiva e de fertilizantes, pelo porto de Paranaguá e ainda pela indústria têxtil do Vale do Itajaí. O dinamismo da economia nordestina está ligado aos serviços e à agropecuária.

No Norte, o destaque fora dos centros urbanos ficou para a indústria de minérios.

(Ana Paula Grabois Valor Online)

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Comentário: E a desigualdade econômica persiste, forte como o sol brasileiro.


quarta-feira, dezembro 06, 2006

Como dividimos o bolo

Quase metade da riqueza do mundo está concentrada com 1% da população

SÃO PAULO - Para sair da metade da população mundial que representa os mais pobres do planeta, é necessário um patrimônio líquido de aproximadamente US$ 2.200,00 por adulto na família.

A informação consta em estudo da Universidade das Nações Unidas, órgão da ONU, que foi divulgado nesta terça-feira (05).

De acordo com o levantamento, cerca de 40% de toda a riqueza global está concentrada nas mãos de 1% das pessoas consideradas ricas no planeta. Na outra ponta, a metade mais pobre da população mundial é dona de 1% da riqueza.

O estudo leva em consideração os principais componentes do local, como ativos e passivos financeiros, terra, prédios e outras propriedades, envolvendo todos os países do mundo.

Segundo o levantamento, em 2000, um casal precisava de um patrimônio de US$ 1 milhão para estar entre o 1% de mais ricos do mundo, grupo que reúne 37 milhões de pessoas.

Apesar de que os países da América do Norte só possuem 6% da população adulta mundial, 34% da riqueza está concentrada na região. Em seguida, aparecem Europa e as nações mais desenvolvidas da Ásia e Pacífico, onde a população, junto com a América do Norte, soma 90% do total da riqueza global.

Por outro lado, a riqueza dos habitantes da África, China, Índia e outros países com menos investimentos da Ásia é consideravelmente menor na comparação com o tamanho da população.

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A ideologia do mundo é egoísta. O coração do mundo é seco. Por mais que haja ações solidárias, estes dados mostram que ainda é preciso haver uma grande transformação em nossa sociedade. Quando olhamos para Cristo e a maneira como viveu neste mundo, percebemos o contra-senso de como vivemos em nosso mundo hoje.

Ouvindo a América Latina

Estou desde o dia 04, na Colômbia (cidade de Paipa). Participo de um encontro latino-americano sobre infância e igreja.

Tem sido muito interessante ouvir os irmãos e irmãs de outros países da América Latina. Eles têm muito o que nos ensinar, especialmente em como viver o evangelho diante dos problemas que nosso continente enfrenta hoje. Eles estão fazendo uma teologia muito mais concreta para o nosso dia-a-dia do que nós, brasileiros. Aliás, nós somos muito distantes deles (talvez, por um certo preconceito ou orgulho).

Muitas igrejas da América Latina enfrentam poderes opressores em seus países, violência cometidas por verdadeiros governos paralelos (o que chamados de "governo paralelo" no Brasil nem se compara!), pobreza extrema e abuso contra crianças e adolescentes em risco. E ao contrário de muitos pentecostais do Brasil (e tradicionais também), os daqui são muito mais ativos, articulados politicamente e conscientes da realidade.

Precisamos nos aproximar de nossos "hermanos", ouvir suas histórias, aprender com eles e renovar nossa espiritualidade olhando para a deles. Precisamos sair de nosso "berço esplêndido", que de esplêndido não tem nada.

sábado, novembro 25, 2006

(...)

E quando o silêncio é maior que todas as palavras juntas? O que fazer?
(...)

Que é a vida?

“Que é a vida? Vocês são como uma neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa”. Tiago 4.14b

quinta-feira, novembro 16, 2006

Dia

Não que eu possa olhar, mas vejo.
Máquinas, campos, trilhos;
E o próximo é horizonte,
E o anterior é sonho.

Não que eu possa sentir, mas sofro.
Lágrimas, riscos, ausência;
Bala que perfura lentamente
Pelos risos mortos.

Não que eu possa entender, mas creio.
Cruzes, sacrifícios, orações;
Transcendente em mim,
Pela certeza do que não se vê.

Não que eu seja, mas vivo.
Não que eu esteja, mas existo.
Não que eu caminhe, mas apresso-me.

Foi o sorriso largo do sol que me despertou.


Escrita em 04 de novembro de 2006.
Viçosa (MG)

sábado, outubro 07, 2006

Um silêncio

Hoje, sábado. Noite de lua, dia outrora cheio de barulho, atividades e sorrisos. Agora, os músculos começam desacelerar seus movimentos. Semana que finda, entre viagem longa e enfrentamento da rotina diária.
Nas duas últimas semanas, estive na Malásia. Participei de um encontro para jovens de mais de 100 países. Foi uma experiência fascinante.
Entre horas e horas de viagem aérea e os encontros com novas pessoas, havia sempre uma espécie de silêncio chegando até mim - um mero calar de vozes, efêmero, quase imperceptível. Era do silêncio que eu ouvia as melhores lições. Era do estático momento que eu me via e percebia claramente as palavras de quem há muito já conversava comigo.
Eu ouvi, e ainda me lembro do que ouvi. Era o contra-senso do mundo. Eram verdades antigas, mas revelantes ainda. Era o convite para que meu coração se inclinasse novamente.
Entre as palavras doces que me vieram, ouvi sobre humildade, esforço, perseverança, estilo de vida. Ouvi que preciso rever minha caminhada e que devo assumir minhas responsabilidades. Ouvi de Deus sobre amor e perdição. Foi claro ao dizer que a Ele pertence a salvação, seja eu como for ou quem seja. O que me resta senão outro silêncio - agora o humano?
Silêncio abençoado, surpreendente.
Será que verdadeira história é feita de hiatos?

domingo, setembro 17, 2006

Um copo dágua

Hoje conheci um homem de 36 anos, doente. Chama-se Olair. Há poucos dias, ele estava na UTI, com crise profunda nos rins.
Ele dizia que nos tempos que passou no hospital, o que o incomodou não foi a dor, mas a sede.
Devido a doença, Olair não podia consumir muito líquido. Os médicos lhe davam um copo muito pequeno com água. Essa quantidade era para a metade de um dia. Ele tinha tanta sede que chegou a beber a água e depois cuspi-la no copo, só para num outro momento molhar a língua de novo.
Fiquei comovido com o drama daquele homem de família que não consegue mais trabalhar, e mesmo assim ainda não foi aposentado por invalidez.
Lembrei de Jesus - quando crucificado e muito sedento - recebeu apenas vinho visturado com fel. De tão amargo que era, ele não conseguiu engolir o líquido.
Lembrei também do encontro do mesmo Jesus com a samaritana emocionalmente frágil. Ele lhe pediu água do poço de Jacó. A mulher - presa pelas tradições religiosas e inferiorizada pelo preconceito dos judeus - não conseguiu servi-lo. Jesus, por sua vez, não apenas curou aquela mulher de todas as suas feridas emocionais e espirituais, como lhe concedeu a "água viva" que transforma vidas secas como a dela em "fontes que jorram eternamente".
Aquele homem com quem conversei hoje me ensinou a dar valor a um simples copo d'água. Enquanto anseio poder, controle e sucesso, ele quer apenas voltar a trabalhar e beber o tanto de água que desejar.
O outro homem (Jesus) me ensinou que não há vida tão seca que não possa ser transformada em um cachoeira que não se finda.

O meu querido irmão André descobriu esses dias que o câncer não o deixou. Estamos muito tristes. Porém, de alguma forma (que não sei explicar) o Cristo nos consola, nos revela verdades e nos faz ver outros horizontes.

A vida faz mais sentido para mim depois do drama do André, assim como um copo d'água faz mais sentido depois da conversa com o Olacir.

Não sei por que, mas a escuridão sempre vem antes do amanhecer.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Corrupção e egoísmo

Para mim, o mais difícil é manter-me fiel ao que creio. Minhas incoerências me deixam cansado. Mas é aí que olho para o "autor e consumador da nossa fé: Jesus". Olho, mas ainda assim devo ter cuidado para não afundar, como Pedro quando andava sobre as águas.
O coração humano é por demais corrupto. E nossas relações são terrivelmente afetadas por isso. Desejamos felicidade, mas domesticamos nossos ódios e rancores. Ansiamos por paz, mas nossa boca não sabe pronunciar nada mais que insinuações, veneno, palavras ferinas e sem piedade. Lutamos por sucesso, mas não queremos caminhar com honestidade, porque já escolhemos o atalho da simulação.
No final, nossos olhos já estão tão sujos que nos tornamos míopes (enxergamos apenas vultos). Estão tão condicionados que não enxergamos mais as verdadeiras cores da vida.
No final, nossas atitudes estão presas em nosso próprio egoísmo. Agimos por nós mesmos; pensamos, raciocinamos, decidimos, escolhemos por uma única razão: nosso próprio bem-estar. E então nos isolamos - cada dia mais.
O que consola é que o Cristianismo tem como base os relacionamentos (com Deus e com os outros). Assim, acreditamos que a cada encontro pode haver transformação. E a cada transformação, pode ocorrer mais transformações. E assim por diante...
Deus nos capacita para redimirmos os relacionamentos com os outros quando buscamos a plenitude do relacionamento com Ele mesmo.
Sigamos em frente... na esperança do Mestre.
Em oração,
Lissânder

segunda-feira, agosto 07, 2006

Somos revolucionários

Estou lendo um livro do jornalista Zuenir Ventura. Em um dos capítulos, ele cita a seguinte frase de um outro escritor: "A verdade é revolucionária".
Infelizmente, nós, cristãos, estamos esquecendo disso. Somos revolucionários. Não do tipo que adere à violência. Se se assim for, nossa atitude não é nada revolucionária, pois este modelo não funciona e não é novo.
Somos revolucionários porque vivemos o Evangelho de Cristo. Vivemos um proposta de vida que transformou (e vem transformando) o mundo. Vivemos a proposta dos "bem-aventurados" (Mt 5): a revolução do amor e da justiça.
Vivemos o "Evangelho às avessas", onde o último será o primeiro, a criança é o modelo de espiritualidade para os adultos, o louco é o são, o fraco é o forte e a morte é o caminho da ressurreição e da vida.
Temos o tesouro em nossas mãos. Somos do Deus Criador. Fazemos parte de um Reino.
O que estamos esperando?
Sigamos o Caminho, dispostos a nos doar, pois, afinal, o sal e a luz somos nós mesmos.

sábado, junho 17, 2006

Fé e poder

Reúno-me semanalmente com um grupo de pessoas simples em uma pequena cidade de cerca de 1o mil habitantes, chamada Teixeiras. O bairro onde moram é bem pobre e suas casas têm quase sempre vestígios de improviso. Seus moradores, inclusive, estão sofrendo nestes dias porque não têm roupas para afugentar o frio.

Nos reunimos sempre para estudar a vida de Jesus Cristo. Interessante saber que pessoas - na maioria, rejeitadas pela sociedade por serem pobres - podem expressar suas idéias sobre a vida e interpretar textos antigos e difíceis.

Nesta quinta-feira, 15 de junho, lemos juntos um texto que descreve o fato em que Jesus acalma um vendaval que aflingia as pessoas que viajavam no mesmo barco que ele. Falar que Jesus é poderoso e que tem controle sobre a natureza é óbvio diante deste texto. Mas este mesmo texto pode nos ensinar lições preciosas sobre o que é poder e como ele deve ser usado.

Entre perguntas e respostas, refletimos juntos sobre nossos poderes. Concordamos que todos, de uma forma ou de outra, temos poder sobre pessoas e coisas: sobre filhos, empregados, situações, escolhas...

A grande questão é saber como usamos nossos poderes. Resolvemos, então, olhar para o exemplo de Jesus. Ele recebeu poder de Deus "não para ser servido, mas para servir", como relata Marcos 10.43-45. Jesus acalmou a tempestade, não para mostrar seu poder sobre tudo e todos (isso será feito no tempo certo, segundo Fp 2.9-11), mas para fortalecer a fé dos seus amigos ("onde está a sua fé?", ele disse).

Fé e poder estão mais próximos do que imaginamos. Maquiavel dizia em seu famigerado e conhecido "O Príncipe" que os principados eclesiásticos mantém-se porque são sustentados pela "rotina da religião". Disse Maquiavel:

"As suas instituições [dos principados eclesiásticos] tornam-se tão fortes e de tal natureza que sustentam os seus príncipes no poder, vivem e procedem eles bem como entendem. Só estes possuem Estados e não os defendem; só estes possuem súditos que não governam. E os seus Estados, apesar de indefesos, não lhes são arrebatados; os súditos, embora não sejam governados, nã0 cuidam de alijar o príncipe nem o podem fazer. Somente esses principados, portanto, são por natureza, seguros e felizes." (capítulo XI, páragrafo 1).

Claro, Maquiavel estava se referindo aos líderes religiosos do século XVI. Mas talvez possamos pegar emprestada sua reflexão para nos ajudar a analisar as práticas do poder no século XXI.

Dos governantes (políticos ou religiosos) aos simples moradores de um bairro pobre da uma pequeninha cidade mineira... todos precisam aprender a lidar com o poder que têm. Isso é algo urgente!

Jesus nos ensina que o poder só tem sentido se é usado para servir o outro. O poder não deve ser usado para oprimir, auto-glorificar ou construir "castelos de vento". O poder deve ser usado para restabelecer o equilíbrio, proteger o indefeso e estabelecer a justiça.

Para nós, cristãos, a fé que temos deve ser o instrumento harmonizador no uso do poder. Cremos que todo o poder que temos, na verdade, foi dado por Deus, através do Espírito Santo. Atos 1.8 avisou que o poder do Espírito desceria sobre nós para que fôssemos testemunhas de Jesus, "tanto em Jerusalém quanto em Judéia e Samaria, e até os confins da terra". Não é para sermos líderes déspotas e egocêntricos; é para sermos simplesmente testemunhas de alguém que é maior que nós. Testemunha fala e mostra a verdade. Só isso (e tudo isso).

Eu e o grupo de pessoas reunidas naquela fria quinta-feira, terminamos nosso encontro com pequenos sorrisos nos lábios. Parece que havíamos descoberto algo muito precioso. Talvez eles nuncam tenham pensado que possuíam poder. Talvez eu nunca tenha pensado isso até aquele dia.

O sentimento que carregamos conosco, ao final da reunião, foi de que o poder é um presente muito sério e de que se ele for usado corretamente fará muito bem a todos.

terça-feira, maio 09, 2006

A humanidade da morte

Nenhuma vida é completa até que haja morte. A morte marca o limite. Ser humano é morrer. Ao morrermos, atestamos nossa humanidade. A morte aprova, mais do que encerra, a nossa humanidade.
A tentação original reside em tentarmos ser iguais a Deus (Gn 3.5). A advertência original é que, se tentarmos fazê-lo, morreremos (Gn 3.3). A morte protege e garante nossa humanidade. Nossa tentativa de sermos mais, ou diferentes, do que é o humano (que é a marca comum do pecado) faz com que nos tornemos menos que humanos. Nesse sentido, a morte age de maneira a evitar nossa desumanização.
Por isso, saber viver envolve necessariamente uma boa dose de meditação e consideração sobre a morte. Se não dermos a devida atenção à morte, mas vivermos a todo instante evitando ou obscurecendo o assunto com eufemismos, restringimos nossa vida. Ao negarmos a morte, evitamos a vida. É significativo o fato de que, ao nos contar a história de Jesus – história que tem mais vida do que qualquer outra – os quatro evangelistas nos informem mais detalhes de sua morte do que de qualquer outra fase de sua vida.

Perterson, Eugene. Transpondo Muralhas. Editorial Habacuc. Rio de Janeiro: 2004, pág 274.

terça-feira, março 28, 2006

Carta a um amigo do peito

Prezado amigo,

Acho que um dos maiores prejuízos quando pecamos (além, é claro, da quebra de comunhão com Deus), é a visão distorcida sobre quem somos e sobre o potencial que Deus nos deu. Tenho percebido isso em minha vida.

Quanto mais eu peco, tenho menos clareza sobre a noção do que sou (identidade) e do que Deus quer que eu seja (vocação). Aí então fico pensando que não sou capaz, que estou enganando as pessoas, que estou no caminho errado...

Para mim, a única solução para isso é desfrutar profundamente da graça de Deus. Ela é o único combustível para caminharmos. Sem ela, fica tudo sem sentido: a caminhada é longa demais, o cansaço é muito grande e os problemas são bem mais numerosos que as soluções.

Uma coisa eu sei: pela fé, Deus me ama e quer que eu descubra toda a riqueza que ele me deu. Às vezes, essa riqueza está na minha fraqueza; às vezes, na minha sinceridade; às vezes, na capacidade de começar tudo de novo.. e etc.

Por tudo isso, vale a pena continuar.

Que Deus nos oriente.

Em Cristo,

Lissânder

quinta-feira, março 09, 2006

Maldade

A relação entre a maldade e a bondade é estranha porque, como são antitéticas, deveriam se anular mutuamente, como matéria e anti-matéria, o que tornaria a existência uma impossibilidade.

Entretanto, a maldade tornou-se dependente da bondade.

Para, quem quer que seja, cometer maldade é preciso existir, desejar, decidir e implementar. Tanto existir como desejar, decidir e implementar são coisas boas em si. Para praticar a maldade é preciso lançar mäo de atributos da bondade e subvertê-los.

Não se pode falar de equilíbrio, porque este exige que o fiel da balança se mantenha no meio, o que determina que não haja encontro entre os opostos. Encontro soma ou provoca mútua anulação.

Algo necessariamente exógeno interferiu e alterou a relação entre elementos antitéticos por definição.

Ariovaldo Ramos (retirado do seu blog pessoal)
http://ariovaldoramos.zip.net/index.html

quinta-feira, março 02, 2006

Frase legal

"O conhecimento não liberta o homem, apenas aumenta seu poder - um poder que pode ser usado para o bem ou para o mal. Nesse ponto, sou um pessimista: o futuro da humanidade será igual a seu passado, só que com mais conhecimento."

John Gray (citado na revista Ultimato, nº299)

www.ultimato.com.br

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Tesouro real

Há de ser ter mais coragem!
Coração selvagem, cavalgando pelas florestas obtusas, lindas.

Há de se ter vivência!
Acordar bem cedo e enfrentar cada respiração é o segredo da vida.

Não tenho fórmulas. Tenho um caminho.
Não tenho a felicidade. Tenho montanhas e desfiladeiros que escondem os momentos mais preciosos de um ser humano (que alguns simplificam, denominando-os de "felicidade").

Tenho um copo d'água limpa.
Tenho um cavalo.
Tenho um pedaço de pão.
Tenho uma companheira. Sorrimos juntos.
Tenho um Pai. Sorrimos juntos.

Há de se ter coragem!

Há de se ter olhos de criança para enxergar o que se tem.
Há de se ter mãos de criança para receber o Reino.
O restante é ilusão.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Tarde quente. Entre os sons do rádio e do ventilador, tento entender minhas atitudes.
Braços largos, coluna vertebral irregular. E o tempo vai passando, enquanto contabilizo qualidades e quantidades.
Minhas palavras são lidas pelo silêncio. O que mais basta?
Minhas heranças são pedras sobre caminhos improvisados.
Nada mais se espera além do simples. Do básico. Do real.
O que vier é surpresa aceitável ou tragédia enfrentada.

Tarde de segunda-feira. Dia de trabalho.

Diálogo sobre a bondade

- Mas o que virá, então?
- Talvez, um caminho mais longo, o medo mais pavoroso...
- Não fale assim! Acabo pensando que a bondade é ilusão!
- E não é, oras!?
- Claro que não! Se assim fosse, como poderíamos continuar vivendo? O que poderia existir se a Bondade não existisse?
- Hum...
- Muitos duvidam da existência de Deus porque o mal existe. Eu creio em Deus exatamente porque o Bem existe.
- Hum... hum...

Paiol da Aurora

VI.
Viver é estar acordado
e acordar. E comer
o pão, beber a branca
alegria, deitar
com as lavas.

E no tempo ajustado
pela alma, erguer
as asas.
(...)


VII.
Os olhos voarão,
os braços e os pés
voarão.

E pela sacada
de mel, não há
alma que não voe.

E o céu coado
entorna fluvo,
uivo: em decibéis,
como um tonel,
o anel intransponível
de gaivotas.


VIII.
A roda de Deus
nos toca.
E vives
com um ramo
de amanhecer
na boca.

Trechos do poema Paiol da Aurora, de Carlos Nejar.

sábado, fevereiro 18, 2006

Asas

Peço-te asas.
Para voar e ver tudo que não enxergo daqui. Para limpar meus pés da lama de ontem.
Que minha fraqueza de hoje seja minha força amanhã.
Pelo poder do teu Espírito, peço-te asas.
Asas para voar pelos montes demasiadamente altos. Eles estão em meus sonhos, mas não posso tocá-los.
Não quero asas de anjos. Sim, que sejam de humanos sem rumo. Eles sabem exatamente o que lhes falta.
Peço-te o que me falta: asas.

sábado, janeiro 21, 2006

Utopia possível

Sabe qual o meu sonho desde 2005? É imaginar um mundo de partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano. No qual a dor de um seja o cuidado do outro. Em que as portas das casas não tenham trancas, ninguém caminhe com medo pelas ruas, a todos estejam assegurados os mesmos direitos e oportunidades. Uma civilização do amor, onde todos vivam como irmãos e irmãs, em torno da mesa da comunhão de bens e de espírito, de modo que Deus possa ser verdadeiramente louvado como Pai Nosso.
Frei Betto, em "Carta ao Arqueólogo do Futuro".

domingo, janeiro 08, 2006

Um pequena crônica

Janela ao sol. Estico o pescoço com dificuldades e olho para fora. Pessoas apressadas, buzinas, olhares fugidios.
Ouço vozes, muitas. Desconexas, sem fim nem começo.
Sinto cheiros estranhos. Não há mais o que se provar. Não há mais gostos, apenas releituras bizarras. Fedor.
Os toques são sempre involuntários. Esbarros. Ninguém teve a intenção. O emaranhado das relações parece mais novelos de lã embaraçados. Ninguém sabe onde tudo começa.
Estou cansado, minha vista dói. Não suporto mais essa confusão.
Encolho o pescoço, fecho a janela, olho para o quarto. O espelho no fundo revela-me. Descubro, então, que eu estava dentro de mim.

Captura impossível

O que é a Palavra senão o Verbo?
O que a fundamenta senão quem a profere?
Fora da Palavra não há realidade, não há caminho, não há verdade, não há vida.
A Palavra é o Verbo que se fez carne e habitou entre nós. A Palavra é uma pessoa. Ela não pode ser relativa porque não é algo, mas alguém.
Portanto, é ínutil capturar a Verdade. Como água escorrendo pelos dedos, é impossível contê-la.
Ansiamos aprisionar o vento. Como? Que sonho, ilusão, utopia!
O que nos cabe é o que a boca do Senhor nos confere. Nada mais, nada menos.

Realidade

"Deus é a maior realidade que existe".
Ariovaldo Ramos, teólogo e filósofo brasileiro.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Poema de Natal

Dorme um Deus-Menino entre etiquetas
e lá fora explodem rolhas de champanha.

No gráfico de vendas se encapela
em ondas a maré de mercancia.
Camuflado, barbas brancas,
Papai Noel executa promissórias de crediário.

A piedade vira embrulhos
neste Natal sem manjedouras.
(...)

Luiz Coronel

Vida que chega...

Ante-véspera de natal. Clima gostoso, familiar. Eu, de férias em Belém.
Hoje, dois grandes amigos meus irão casar-se. Ansiedade de ambos, nervosismo, emoção. Daqui a pouco, vou tomar banho e vestir a roupa adequada para o enlace.
Dizem que é milagre sempre que nasce uma criança. Concordo. Mas também acho que é milagroso ver duas pessoas se amando de verdade e tendo coragem e certeza suficientes para se unirem para todo o sempre.
Casamento envolve compromisso, perseverança, sinceridade, fidelidade, amor diário e temor ao Senhor. O resto é moda ou estupidez.
Que o Senhor derrame sua benção sobre vocês, queridos Amiel e Ana Paula!!

Livro que estou lendo

Estou lendo o livro Cinzas do Norte, de Milton Hatoum. Estou gostando bastante da leitura. É uma ficção de se passa em Manaus (AM). A narrativa é agradável e criativa. Estou mergulhando no universo de Mundo, Lavo, Tio Ram, Alícia, etc... A história se passa na Manaus pós-segunda guerra mundial e trata de conflitos familiares, brigas políticas e uma boa dose de mistério.
Eu recomendo a leitura com satisfação!!!

Deus existe?

“Se Deus não existe, eu sou Deus. Se Deus existe, toda a vontade lhe pertence, e fora dessa vontade nada posso. Se ele não existe, toda vontade me pertence e devo proclamar a minha própria vontade.”
(personagem Kirilov, em "Os Demônios", de Fiodor Dostoievski)

segunda-feira, novembro 14, 2005

Poesia "Tempo"

O tempo

tem

dono.


O tempo

tem

sono.


O tempo

faz

temporal


Na madrugada.


E a hora

já passada,

de tanto

passar

passou

da medida.


O tempo

não tem

saída.


Ana Peluso

Conselhos dos escritos de Eclesiastes

Aprecio muito as escritas do misterioso autor do livro de Eclesiastes. Com um realismo notável, ele nos aconselha sobre como lidar com a vida:

"Quando as nuvens ficam cheias, a chuva cai. Uma árvore pode cair em qualquer direção, mas, no lugar em que cair, aí ficará.
Quem fica esperando que o vento mude e que o tempo fique bom nunca plantará, nem colherá nada.
Deus faz todas as coisas. (...)

Semeie de manhã e também de tarde porque você não sabe se todas as sementes crescerão bem, nem se uma crescerá melhor do que a outra.
Como é agradável a luz do dia, e como é bom ver o sol!".

Ec 11.3-7

Férias

No dia 03 de dezembro entro de férias. Viajo para minha terrinha no dia 07 e retorno para Viçosa no dia 02 de janeiro de 2006. Estou com saudades dos amigos e da família.
Me alimento com o tempo e com a história. Os pedaços macios de saudade recheados por risos relembrados são deliciosos!

domingo, outubro 16, 2005

O Cão de Caça do Céu

Dele fugi, noites e dias adentro;
Dele fugi, pelos arcos dos anos;
Dele fugi, pelos caminhos dos labirintos
De minha própria mente; e no meio de lágrimas
Dele me ocultei, e sob riso incessante.
Por sobre esperanças panorâmicas corri;
E lancei-me, precipitado,
Para baixo de titânicas trevas de temores abissais,
Para longe daqueles fortes Pés que seguiam, seguiam após mim.
Mas com desapressada perseguição,
E com inabalável ritmo,
Deliberada velocidade, majestosa urgência,
Eles marcavam os passos - e uma Voz insistia
Mais urgente que os Pés -
"Todas as coisas traem a ti, que traíste a Mim.

Francis Thompson, poeta.

THOMPSON, Francis. The Hound of Heaven. Burns, Oates & Washbourne Ltda, 1893. p. 9.

sexta-feira, setembro 16, 2005

Minhas mãos estão abertas. Não consigo fechá-las. O copo cai, e eu não posso fazer nada. Sinto-me impotente.
Os sorrisos não satisfazem, o abraço parece vão. Os olhos estão abertos, mas parecem cegamente inúteis. O mundo cai sobre minha cabeça. Há de se ter salvação?
- Sim. Não esqueça: a vida não é controle; é entrega.

Ame

"Ame toda a criação de Deus, ela inteira e cada grão de areia nela. Ame cada folha, cada raio de luz de Deus. Se amar tudo, perceberá o mistério divino nas coisas."

Fiodor Dostoiévski (Os irmãos Karamázov)

terça-feira, setembro 06, 2005

CICLO

O meu amor
Virou Chuva
que virou rio
que o arco-íris bebeu
O meu amor...

Firmino Freitas

Retirado do blog http://hmeron.zip.net