domingo, maio 23, 2010

Quem disse que o Evangelho é fácil?

Uma confusão com estas duas palavras - simples e simplista - quando buscamos compreender o Evangelho de Jesus pode causar consequencias trágicas. É como olhar para o céu e ver a clareza, a harmonia e a simplicidade da paisagem. No entanto, esta experiência não torna o céu algo simplista. É preciso uma bom tempo de dedicação para estudar os fenômenos que geram a realidade das nuvens, das cores, da aparência. (Sem falar obviamente que nem sempre o céu tem a mesma aparência)

Falar do Evangelho de Jesus é dizer que o que ele nos oferece está acessível a qualquer pessoa, e que a graça de Deus possibilita o deleite e o envolvimento do ser humano na realidade das virtudes do reino de Deus. Mas isso não quer dizer que para alcançar o homem e a mulher devemos simplificar o Evangelho. Ele não é um mero joguinho de criança, muito menos uma interpretação fácil, rápida e subjetiva de textos bíblicos. Por que não?

  • Porque o Evangelho é divino, e não temos controle sobre ele. Quem nos revelou a mensagem foi o próprio Deus. E nos últimos dias, ele nos falou por meio de Jesus Cristo (Hb 1.2), a revelação exata de Deus Pai (Hb 1.3). Ele é o autor da mensagem, nós somos mensageiros.
  • Porque o Evangelho toca as feridas mais profundas, e isso é inegociável. Se a mensagem cristã não toca a profundidade da constituição humana, não é cristã (isso dói e pode gerar rejeição). Como diz o apóstolo Paulo, o Evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16).
  • Porque estamos em uma guerra, e o Evangelho é um instrumento para acabar com ela. Não dá para compreender o Evangelho, como se estivéssemos sentados no sofá da sala, vendo TV. Se não nos envolvemos na luta contra o mal, contra o pecado, contra a injustiça, a mensagem do Evangelho será resumida a um conteúdo de auto-ajuda religiosa, que traz consolo e alívio para quem está cansado de viver. Segundo Paulo, precisamos de uma armadura, e o Evangelho são os nossos calçados para vencer a guerra e reestabelecer a paz (Ef 6.15). Quem esteve/está em contextos de guerra sabe como é difícil viver assim. Tornar o evangelho simplista em situações como essa é tratar um doente apenas com analgésicos, sem curá-lo, de fato.
  • Porque o Evangelho nos coloca em uma longa caminhada, e isso exige perseverança. O Evangelho não é comida fast-food. Ele não é importante apenas para suprir nossas necessidades básicas imediatas. Ele nos coloca em uma caminhada longa e fascinante. Já não somos mais os mesmos e não o seremos mais ainda a cada passo que dermos. Muitos têm usado a bandeira dos milagres ou a bandeira da religiosidade legalista e supersticiosa para apressar e facilitar a digestão do Evangelho. No entanto, isso não adianta muito, porque a caminhada vai continuar, e os que não compreendem a real profundidade do que estão consumindo, não terão força e vontade para seguir em frente (Mt 13.20.21).

Certamente há outros motivos para considerar que o Evangelho não é simplista. Quem tiver interesse em acrescentá-los nos comentários deste artigo, fique à vontade. O importante é saber que o Evangelho é claro e acessível, mas não a custa das tentativas de esvaziá-lo. Se assim for, estaremos igualmente perdidos como antes.

sábado, maio 01, 2010

Respostas concretas

Senhor,
As tuas respostas às perguntas do mundo são mais do que palavras; são atitudes. Os teus ensinamentos sobre a vida são mais do que afirmações; são histórias de gente. As tuas providências diante do mal e do sofrimento incluem o ser humano como instrumento da tua justiça.
É misterioso, mas real: para atender o clamor do homem, tu usas o próprio homem. Para cumprir teu plano eterno de salvação, tu te fizeste homem, sem deixar de ser divino.


Não há dúvidas de que a própria humanidade é o ponto de intersecção entre o real e o ideal. É nela que Deus materializa sua vontade, restaurando e promovendo esta humanidade. Enquanto lutamos contra nós mesmos, deixamos de perceber o trabalho de Deus entre nós.
Que, por meio de Jesus Cristo, sejamos respostas concretas a nós mesmos.

terça-feira, abril 27, 2010

Escravo

Quem toca, aprisionado está;
Entrelaçado pelas teias da própria alma;
Trilhando a jornada da pequenez,
Cansa-se com o lixo que produz.

Quem vê, limitado está;
Tragado pelas águas escuras da vergonha;
Debatendo-se entre as desculpas do coração,
Adormece os pés, não mais altaneiros.

Quem silencia, algemado está;
Seduzido pela manipulação do poder;
Sonhando-se herói de um mundo egoísta,
Não mais fala, não mais ouve.

Quem aceita, escravizado está;
Submetido à ditadura do prazer;
Confundindo certo e errado, luz e trevas,
Senta-se, enquanto o brilho da coragem se vai.

Areia movediça.
Que os órfãos de Abraão não mais a subestimem.
Nada pode ser controlado.
Nem a liberdade.

“Quem peca é escravo do pecado” (João 8.34)

sábado, abril 10, 2010

Ode à amizade

O singelo poema que escrevi no post anterior poderia muito bem ter outro título: "Ode à amizade". Seu conteúdo reconhece que caminhar com amigos é muito melhor.

Tenho pensado nestes dias sobre o valor da amizade. Os melodramáticos a retiraram do contexto da missão (do meio do caminho), e com isso ela se tornou pobre e motivo apenas para reflexões vazias. Muito do que fazemos de significativo em nossas vidas só é possível porque temos amigos. Muito (ou quase tudo) perderia o sentido se não houvesse a amizade. A amizade é um assunto altamente espiritual!


Jesus reconhece seus discípulos como amigos (Jo 15.15). O que isso significa? O grande trabalho de Jesus foi assumir o sacrifício necessário para que o ser humano se reconciliasse com ele. Reconciliar é restaurar o relacionamento, é voltar a ser amigo. 


Com a morte e a ressurreição de Cristo em favor de nós, tudo mudou. A amizade se tornou o maior presente e a maior obra da Trindade. Se algo faz sentido nesta vida dura, é que somos transformados em amigos. Nossa identidade diante de Deus é formada na perspectiva da amizade. A própria obediência resulta no reconhecimento da amizade (Jo 15.14).


Ser amigo é sentar junto, rir junto, chorar junto, comer junto, trabalhar junto, sonhar junto, caminhar junto. Mas é também viver um estilo de vida que não dificulta a reconciliação. Neste círculo de cumplicidade é que o amor se fortalece (Jo 15.12).


"Faça amigos" é quase sinônimo de "ame um ao outro" (Jo 15.17). Seguindo esta ordem, nosso caminho será muito mais rico e interessante.

terça-feira, abril 06, 2010

Enquanto caminho

Enquanto caminho, vejo mais que estradas.
Vejo rostos também marcados pelas cicatrizes da vida.

Enquanto caminho, ouço mais que passos.
Ouço canções de amizade que embalam os sonhos.

Enquanto caminho
, sinto mais que cansaço.
Sinto alegria por ter companheiros de viagem também alegres.

Enquanto caminho
, carrego mais que bagagem.
Carrego minha história com os outros, que vez ou outra me faz lembrar para aonde vou.

Enquanto caminho
, confio em algo mais do que o mapa.
Confio em Deus, que transforma a dura jornada em uma volta para casa.

domingo, março 28, 2010

A maldição do liberto sem pai

Uma academia de minha cidade lançou uma campanha publicitária com o seguinte slogan “Viva a liberdade”. A foto que ilustra a frase é de um jovem pulando de um penhasco.

É assim que o conceito de “liberdade” é entendido hoje. É o direito de se fazer o que quiser, sem limites, sem dogmas, mas também sem muita noção do perigo das nossas escolhas para nós e para os outros. E não me venha com a ideia de que isso é argumento de covarde. Quando fazemos as escolhas que nosso coração deseja, elas são justificadas pelo valor da liberdade e da coragem, mas quando os efeitos do perigo destas escolhas nos batem à porta, fugimos ou buscamos um bode expiatório para enfrentá-los. Isso não é ter coragem.

A maldição do liberto sem pai consiste na ingenuidade de buscar uma tal liberdade à custa da orfandade. Experimentar a autonomia, mas esquecer-se de como é bom contar com os outros. Satisfazemos os desejos do nosso coração, mas não levamos a sério o fato de que ninguém caminha sozinho. Nossas escolhas sempre terão conseqüências na vida de outros, especialmente os que mais nos amam.

Enquanto acreditamos na ilusão de uma liberdade infinita, cambaleamos e sofremos com os efeitos de nossas escolhas impensadas: isolamento social, conflitos familiares, arrogância, imaturidade, indiferença com Deus. Nos sentimos perdidos e confusos, mesmo tendo experimentado a “liberdade”.

Para os que se entregam ao reino de Deus, a promessa é preciosa: nos tornamos seus filhos. Eis o verdadeiro caminho para a liberdade. Passamos a ver a vida como um grande presente de um pai amoroso, e a vivemos com abundância. No entanto, sabemos que o caminho é feito comunitariamente, que precisamos dos outros e que os outros precisam de nós. Sabemos que os erros existem, mas nos esforçamos para viver da maneira correta, por amor a Deus e ao ser humano. Não vivemos em um mundo habitado por pessoas estranhas onde cada um se basta em suas próprias decisões. Vivemos em uma família, onde toda escolha afeta o nosso próximo. Se assim pensamos, a paz será naturalmente uma construção coletiva, alegre e sincera. Daí as palavras de Cristo: “Felizes as pessoas que trabalham pela paz, pois Deus as tratará como seus filhos” (Mateus 5.9).

Viver a liberdade não é ter, a qualquer custo, o direito de pular de um penhasco. É sentir-se parte de uma família, e, em honra a isso, viver intensamente cada momento. É descobrir-se livre na proximidade com o outro. Afinal, mesmo quem tem a coragem de pular de um penhasco vai precisar de um paraquedas.

domingo, março 21, 2010

A maldição do horizonte sem sol


O mal do século não é a depressão, muito menos a solidão. Ambas são apenas sintomas de feridas mais profundas. A “cegueira seletiva” é a pior doença dos nossos tempos. O problema não é que não vemos, mas vemos o que não é importante, e deixamos de perceber o que realmente importa. É como visitar uma praia e enxergar apenas o vendedor de sucos. “Não viu a beleza das ondas? Não viu a brancura da areia da praia? Mas você esteve lá!”

A maldição do horizonte sem sol é o drama de se alegrar com a beleza do horizonte, mas não perceber o fulgor do sol. É ler o texto, mas não lembrar do seu título. É identificar o endereço, mas não se dar conta de que a placa da loja está na sua frente. É dedicar-se a decifrar os enigmas modernos, a dominar a tecnologia mais avançada, a criar as metodologias científicas mais inovadoras, mas não compreender as verdades mais profundas, que excedem os fenômenos meramente visíveis. Certa vez ouvi uma pessoa dizer que “a nossa pior tragédia é sermos bem sucedidos no que não importa”.

Nossa geração sofre com a cegueira seletiva porque não apenas seus olhos, mas também seu coração está doente. “São os olhos a lâmpada do corpo”. Se não há luz do lado de fora é porque o lado de dentro está cheio de escuridão. Se não enxergamos o que é mais importante é porque nossa alma está doente e precisa ser restaurada.

Talvez seja mais adequado chamar de epidemia, e não de doença. Isso porque a cura não vem simplesmente com um tratamento individual; é preciso haver uma mudança de olhar muito mais profunda e abrangente. Por estranho que pareça, a cura será eficaz quanto mais coletiva for.

A felicidade de quem se encontra no reino de Deus é enxergar o que realmente importa. É o que Jesus disse em seu famoso sermão: “Felizes as pessoas que têm coração puro, porque elas verão a Deus” (Mateus 5.8). Nossa visão torna-se límpida porque nosso coração também o é. A cura aconteceu antes, de maneira invisível, dentro de nós; e somente a percebemos quando começamos a enxergar o que não víamos antes. È precisamente isso – enxergar o que não víamos antes - que nos garante que a restauração já começou no profundo do nosso ser.

A promessa de Deus é nos curar de uma cegueira seletiva que nos deixa confusos e iludidos com as enganosas paisagens da vida. Somos submetidos a um escrutínio de nós mesmos, que revela nossa doença. Quando nos entregamos a Deus, passamos a ver o sol, ao mesmo tempo em que nos damos conta de que a beleza do horizonte que enxergávamos era apenas o começo.

Ver a Deus é reconhecer a presença pessoal de quem nos deu olhos exatamente para isso: para ver a beleza de sua divindade e para nos deleitar com as obras de suas mãos.

sábado, março 13, 2010

A maldição da justiça individual



Aquele que está preso à sua própria justiça, é como alguém abandonado em uma ilha deserta: sem pão, sem ajuda, sem salvação. Os caminhos do egoísmo passam necessariamente pelas ilhas da justiça individual. Eis mais uma maldição do nosso tempo.

O homem contemporâneo vê a vida, as pessoas e os problemas a partir de um único princípio: “quem me deve que me pague!” Não há espaço para descontos ou perdão; muito menos para erros, imprevistos ou desatenção dos outros. Não há alegrias compartilhadas, apenas compensações. Não há compaixão, apenas favores. Não há confissões, apenas argumentos.

A maldição da justiça individual consiste em reduzir a uma única pessoa o que deveria ser para todos. O vislumbre do pôr-do-sol privatizado em uma tela pintada. É como comer todo o bolo no meio de outros famintos só porque foi você quem o preparou. “Eu fiz o bolo, logo é justo que o coma por inteiro e não o reparta com ninguém”.

No entanto, não se faz justiça sem misericórdia, porque ninguém resiste ao crivo da justiça individual, assim como ninguém sobrevive sozinho por muito tempo em uma ilha deserta. Quem decide viver assim se torna prisioneiro de si mesmo e da ilusão de uma organização da vida que, na verdade, é egoísta, insuficiente e incompleta. Uma solidão profunda atinge a vítima desta maldição, porque ela não vê amigos, apenas estranhos que ameaçam seus direitos.

A promessa do reino de Deus é colocar em ordem o fluxo da misericórdia. Quem se reconhece dentro deste reino, tem misericórdia dos outros e recebe misericórdia de Deus (Mt 5.7). A justiça da compaixão é o seu cetro. Fazer parte deste reino é ser libertado da escravidão da justiça individual e gozar da plenitude da justiça compartilhada, guiada por Deus e enriquecida pelos relacionamentos verdadeiros.

Misericórdia é “levar ajuda ao miserável” (Léxico Grego de Strong). Para que isso aconteça, precisamos admitir que somos ambos, o que leva a ajuda e o que recebe a misericórdia. E isso só será possível quando Deus nos curar da maldição da justiça individual.

domingo, março 07, 2010

A maldição da carência

Somos capazes de escalar montanhas, percorrer matas e navegar mares à procura do que ainda não temos, de um anseio não realizado. E enquanto buscamos, somos transformados pelo desejo que nos move. De certa forma, ele nos define. À semelhança de Golum, personagem da série “O Senhor dos Anéis”, corremos o risco de perder a humanidade, caso o desejo egoísta pelo “precioso” nos domine.

Nossa geração vive a
maldição da carência. Nela, os desejos aprisionam e definem nossos caminhos e nosso jeito de viver. Eles são fonte de lucro financeiro e movem a máquina pós-moderna da existência. Desejo agora é grife, é ideologia, é fundamento para escolhermos a religião, a ética, o amor. Até nossa maneira de pensar é controlada pelos desejos. Somos capazes de chegar a conclusões absurdas para justificar nossa vontade.

A maldição reside num fato curioso: quanto mais buscamos a satisfação, mais insatisfeitos nos tornamos. É como aqueles jogos de azar que nos fazem gastar mais dinheiro sempre que ganhamos um pouco. Ou como um viciado em drogas, que quanto mais consome, mais sente falta. Não há saída para quem segue este caminho. Um dia a insatisfação o dominará de tal forma que ele perderá o sentido de viver. Quando isso acontecer, a maldição da carência chegará ao mais alto nível de destruição.

Se há uma fartura, esta só é concedida a quem tem a fome certa: fome e sede de justiça (Mt 5.6). Isto é, o desejo de tornar-se justo e de fazer parte de uma justiça que vai além dos nossos desejos egoístas. É abrindo-se para a justiça de Deus que nos encontramos em seu reino. Ao contrário da máquina pós-moderna, a engrenagem do reino de Deus nos humaniza, nos faz mais gente. Escolhemos o que é justo, e não obrigatoriamente o que desejamos. No reino andamos livremente, pois o desejo que nos dominava é apenas mais um companheiro de viagem, com o qual até dialogamos, mas sem sermos subjugados por ele.

Contra a
maldição da carência só mesmo o consolo e a satisfação de um Deus que nos conhece muito bem. A ele entregamos nossos desejos. Em troca, ele nos dá sua justiça.

sábado, fevereiro 27, 2010

A maldição do viajante sem casa

Não é natural sair de casa. Exatamente a segunda metade dos anos de minha vida estão sendo vividos fora da casa de meus pais, o lugar onde dei os primeiros passos e senti os primeiros sentimentos. A gente desacostuma dos detalhes, e lembrar do que ainda é “nosso” torna-se quase uma dor.

O maior consolo de quem sai é ter a esperança de poder voltar, mesmo que seja apenas para visitas. Da mesma forma, a maior tragédia é não saber para onde voltar.

Um amigo meu, ferido por grandes derrotas em sua vida matrimonial, disse recentemente que voltou para a cidade porque “para recomeçar a vida é preciso voltar ao início”. A maldição reside exatamente na realidade do viajante sem casa. Ele gosta de aventuras, descobre novos lugares e novas pessoas, aprende culturas interessantes e outras línguas, mas de tanto ir, vai perdendo o caminho de volta.

Conhecer o mundo não é suficiente. É preciso lembrar sempre o caminho de casa. E quando o esquecemos, nos perdemos na imensidão da vida, assim como quando um banista se afoga na força bravia do mar, outrora belo, mas agora perigoso. Desesperadamente projetamos, então, o “caminho de casa” em tudo que achamos legítimo.

Eis um drama atual. O homem contemporâneo não sabe mais o caminho de casa. E agoniza entre as infinitas possibilidades.

No entanto, a promessa de Deus é dar o seu reino aos que se reconhecem pobres de espírito (Mt 5.3). Contra a maldição do viajante sem casa, Deus concede pertencimento, um lar. Contra a confusão moderna dos caminhos sem volta, ele diz: “o reino é seu”. Eis uma benção indescritível.

O que fazer então? Enxergarmos toda a miséria que há dentro de nós. Dói, mas é necessário. Diante do desespero, baixe as armas e entregue-se àquele para o qual seu coração pulsa. Não será surpresa mais a frente perceber que você, na verdade, está voltando para casa.

Série "Maldições" - Introdução

Aqui vale esclarecer minha intenção. “Maldição” compreendo como “problema”, assim como quando há uma reunião de família para descobrir a razão dos filhos brigarem tanto. O pai pergunta: “por que não conseguimos viver unidos? Por que não ajudamos um ao outro, com satisfação e sem constrangimento?”. E os filhos começam a averiguar os verdadeiros motivos pelos quais o “problema” existe.

Quero falar sobre cinco maldições:
1. Maldição do viajante sem casa
2. Maldição da carência
3. Maldição da justiça individual
4. Maldição do horizonte sem sol
5. Maldição do liberto sem pai

Elas são relevantes aos nossos dias, mas indicam muito mais que uma explicação sobre a atual sociedade. Essas cinco maldições nos mostram o que é viver fora do reino de Deus. Como que virando do avesso, o caminho que me fez encontrá-las foi o sermão das bem-aventuranças de Jesus (Mt 5.3-10). Nele, o Mestre revela a realidade do ser humano antes e depois de descobrir o reino. Suspeito que para compreender o domínio de Deus é preciso antes sentir-se desesperadamente fora dele.

Cada post falará sobre uma maldição.

domingo, fevereiro 21, 2010

O que vemos e o que não vemos

A cega dos olhos não está sempre na escuridão. É possível não ver, vendo; e ver, não vendo. E quando isso acontece, a arrogância é a melhor companheira da cegueira.
Quando nos entregamos a Deus, ele transforma a arrogância em humildade. Aí vemos um mundo novo; bem mais belo e interessante que o anterior.
Humildade é saber que a vida começa em Deus; e é sustentada por ele. Humildade é compreender que o que sou ou faço é verdadeiro se tão somente for uma expressão da obra de Deus em mim. E quando isso ocorre, nos calamos, ouvimos e doamo-nos ao outro, sem invadi-lo.
Quando percebemos a obra de Deus, e nos envolvemos como instrumento dele, viver se torna uma grande benção e, ao mesmo tempo, um grande mistério.
Assim sendo, nossos olhos se tornam janela da alma.

domingo, janeiro 31, 2010

Re-de-mim

Impregna-me de ti
Eu, minh`alma e meus livros.

Faze-me horizonte
Onde a aurora adormece.

Torna-me canto, profecia
E alento para o desespero.

Tempestade que adentra,
Silêncio, árido coração.

Em renovo, sou de novo,
Menos eu, mais vida.

Por entre os dedos,
feridos,
De quem É.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

As batalhas da vida


Domingo fui testemunha de um marco histórico em Caeté (MG): seu Raimundo e dona Dulce completaram 50 anos de casamento. Eu os havia conhecido no dia anterior. Sorrindo, ele não descartou as dificuldades da convivência a dois. Fico imaginando quantas lutas este casal não enfrentou durante 5 décadas para sustentar a família e manter o relacionamento conjugal!

Neste natal, reunimos integrantes de nossas famílias (a minha e a da minha esposa). Foi um tempo abençoado, de alegria. Mas não pude deixar de perceber o esforço geral para não sucumbirmos aos pontos de tensão existentes. Foi preciso muita oração e paciência para mantermos a comunhão.

Nestes últimos dias, tem chovido constantemente em Minas. As manchetes de jornal contam o drama de quem mora em áreas de risco e sofre com o prejuízo dos alagamentos. Enquanto isso, vemos a luta dos ambientalistas para salvar o planeta.

Na segunda-feira, visitei uma igreja batista em Sabará (MG). Pude ver o esforço do pastor local para mobilizar igrejas e governantes, desenvolver projetos de responsabilidade social, e pregar o Evangelho de Cristo.

Estes são alguns exemplos (entre milhões) de que a vida é realmente uma batalha. Todos os dias. Talvez seja por isso que precisamos de uma linha imaginária do início e do fim de um tempo que nos ajude a respirar um pouco, a descansarmos da caminhada. Findamos 2009, começamos 2010, com o sentimento de que algo novo está por vir.

Enquanto leio o livro Surpreendido pela Esperança (N. T. Wright), me dou conta de que o futuro que nos espera será fundamentalmente uma redenção de todo o esforço gasto nas batalhas da vida presente. De todas elas, das menores às maiores, das cotidianas às cósmicas. Segundo o autor, seremos uma nova criação, já antecipada pela ressurreição de Cristo:
"A ressurreição não é um evento absurdo, mas o símbolo e o ponto de partida para o novo mundo. A proposta oferecida pelo cristianismo possui essa magnitude: Jesus de Nazaré não é simplesmente uma nova religião, ou uma nova ética, ou um novo caminho de salvação. Trata-se de uma nova criação". (p. 82, 83)

Sinceramente, acredito muito nisso. Não espero o céu como escapismo (apesar de saber que, segundo Jesus, ainda teremos muitas dores), mas aguardo confiantemente o próximo evento decisivo de Cristo: sua segunda vinda para tornar novas todas as coisas. E esta renovação santa e definitiva dará o sentido pleno a tudo que fazemos hoje em favor do reino de Deus. Cada ato, cada sentimento, cada convicção, cada atitude de entrega, cada batalha. Tudo isso será visto em sua plenitude, sem a presença do pecado.

Minha oração para 2010 é que a esperança cristã, de fato, nos surpreenda e lance luz às batalhas da vida hoje.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Em tão breve viagem de metrô

Eu, sentado na poltrona de um metrô de São Paulo. 10h00. Manhã de hoje. Absorvo os rostos e jeitos dos passageiros. As rugas e as varizes da senhora me chamam a atenção. Como era seu rosto há 20 anos? Ela tem uma beleza perdida. Será que ainda lembra do tempo de jovem menina? O quanto das marcas do sofrimento lhe diminuiram a esperança?
Do outro lado, um rapaz mexendo repetidamente os dedos. Só então percebo o quanto os sons e os movimentos desta viagem são irritantemente repetitivos. A ânsia por algo novo me incomoda.
A moça que fala ao telefone parece sentir-se única em meio a tanta gente. Sua vida está contida no diálogo com uma pessoa invisível do outro lado da linha.
Pergunto-me em pensamento: este sou eu ou é o outro de mim? Este outro seria o verdadeiro, ainda que em tranformação pela graça? Ou seria ele o falso, que teima em impedir a renovação genuína?
Que conflito! Que complexidade! E em tão breve viagem de metrô...

sábado, novembro 28, 2009

Entregue sua humanidade a Deus


O que o homem pode oferecer a Deus? Sua própria humanidade. É o que Deus quer, e o que o ser humano reluta em entregar. É porque corremos o risco de experimentar a vulnerabilidade que então evitamos esta condição.
Decidimos, e assim tratamos de realizar: "de meus erros cuido eu". Quanto mais seguimos este caminho, mais absurda parece a decisão de "entregar nossa humanidade" a Deus.

Assim foi com Moisés, que por 8 vezes (Ex. 3.11, 13; 4.1, 10, 13; 5.22; 6.12, 30) teimou em não entregar suas fraquezas ao Senhor. A missão que Deus deu a ele, de fato, era imensa e grave: libertar todo um povo do poder opressivo de uma grande nação. O peso da responsabilidade fez com que Moisés usasse sua humanidade como desculpa para negar o chamado de Deus.

É interessante perceber que, como resposta, Deus dispôs sua identidade divina como garantia para a humanidade frágil de Moisés (Ex. 3.12, 14; 4.5, 11; 6.2; 7.1-5). Quando, enfim, convenceu-se de que a melhor maneira de enfrentar seus medos era entregá-los a Deus, Moisés se tornou um dos líderes mais perseverantes da história bíblica.


Tudo o que sou pertence ao Senhor! No entanto, reluto em entregar-me plenamente a ele, em atitude de adoração e dependência. Se assim o fizer, Deus se fará conhecido no recôndito de minhas fragilidades. Que assim seja!

sábado, novembro 14, 2009

Considerações sobre trabalho

Gênesis começa narrando o trabalho de Deus. E, ao fazê-lo, em seguida o Senhor concede ao ser humano o privilégio de trabalhar também. Com o pecado, tudo ficou desequilibrado, inclusive, nossa percepção sobre o trabalho. Nos cansamos, criamos hierarquias, nos identificamos exageradamente com a tarefa e esquecemos quem somos.

Para Deus não há dicotomia entre ser e fazer. Quem sofre deste mal é o ser humano, que, por sua vez, na maioria das vezes, não sabe lidar com este privilégio.

Para nós, o trabalho se tornou instrumento de opressão e não de benção, reordenação, aproximação com o Deus que nos deu a capacidade de trabalhar.

Por isso, em essência, todo trabalho humano deve ser uma extensão do trabalho de Deus no mundo, ou seja, todo trabalho (grande ou pequeno) deve ser uma espécie de redenção do desequilíbrio existente.

sábado, novembro 07, 2009

Como lidar com o mundo, a carne e o diabo?

Mundo, carne e diabo; este é um resumo útil oferecido pelo livro de orações da Igreja da Inglaterra com respeito à complexidade de tratar com o mal sistêmico. Mas, como lidamos com o mal?
Tratamos com o mundo não nos conformando a ele e nos conformando com a vontade de Deus (Rm 12.2). Tratamos com a carne pela mortificação (identificando com a crucificação de Cristo) e aspiração (respirando no Espírito). Lidamos com o diabo resistindo e fugindo (Tg 4.7).
É uma batalha de muitas frentes: o mundo, a carne e o diabo. Nosso Senhor se encontra conosco em cada uma dessas frentes: transformando-nos interiormente (Rm 12.2), a fim de podermos transformar o mundo em vez de nos conformarmos a ele, enquanto penetramos nele em nossa obra e missão; produzindo fruto do Espírito através de nós (Gl 5.22,25), enquanto decidimos andar no Espírito e considerar a carne como crucificada; e vencendo o maligno, o diabo (Ap 12.10,11), por meio de todo tipo de oração (Ef 6.13-18) enquanto colocamos a armadura de Cristo.

Stevens, R. Paul. Os Outros Seis Dias. Editora Ultimato e Textus. Viçosa, MG. 2005, p. 199.

terça-feira, novembro 03, 2009

A verdade mais forte

Para entender todas as verdades bíblicas é preciso, antes de tudo, ter uma certeza absoluta: o amor de Deus é mais forte que tudo. Este amor vai além de qualquer tentativa racional ou esforço humano de merecimento. O apóstolo Paulo nos ensina isso em sua famosa carta (seria uma poesia?) aos Romanos (8.28-39).

Este trecho nos inspira a acreditar que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam (28). Só dá para acreditar nisso se, de fato, cremos que o amor de Deus é poderoso o suficiente. Amor esse experimentado em Jesus Cristo (32), que nos justifica (33), que intercede por nós (34), que nos faz vencer em meio a obstáculos imensos como a morte, os demônios, a acusação e a possibilidade de condenação.

Quanto mais perigoso o mundo de hoje se torna mais precisamos crer no amor de Deus. Para Paulo, nada nem ninguém poderá nos separar dele. Como um náufrago que, mesmo cansado, se agarra com todas as forças ao barquinho que flutua, o ser humano deve se apegar ao Senhor.

As palavras de Paulo nos fazem imaginar um quadro, com sua pintura e sua moldura. A pintura, feita por nós, contém traços imperfeitos, com suas possibilidades de sofrimento que formam este mundo. Por isso o autor enumera coisas como: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo e espada (35). Muitas dessas nos vitimam exatamente porque somos cristãos (36).

Mas a moldura do quadro é talhada pelo próprio Deus e dá sentido, tempo e espaço ao que foi pintado. Essa moldura é o Seu amor, com toda a sua plenitude revelada em Jesus Cristo (34).

Por isso, é possível dizer, com toda certeza, que Deus age em todas as coisas; porque o sofrimento que ainda vivemos hoje está limitado pelo amor dele. Amor forjado pelo sacrifício de Jesus Cristo na cruz.

Que o magnífico vislumbre de Paulo nos faça lembrar a maior e mais forte verdade de todas.